30 de maio de 2014

No 90º aniversário de J.M. Varela Gomes

Intervenção de sua filha
Geninha Varela Gomes
Ao meu Pai, João Varela Gomes, no seu 90.º aniversário
Desta vez, coube-me a mim falar em nome dos filhos. É uma imensa responsabilidade que não enjeitei e um sentimento de orgulho impossível de medir.
Começo por agradecer à Casa do Alentejo, nomeadamente ao seu presidente, João Proença, pelo pronto acolhimento dado a este almoço de aniversário e por todas as facilidades concedidas, sem qualquer hesitação. Agradeço igualmente a todos os que contribuíram para a organização desta festa: ao meu Tio João Sequeira, ao Manuel Duran Clemente e ao Raul Zagalo, indispensáveis e incansáveis na concretização dos convites e na sua confirmação. À Maria Adelaide devo todo o socorro e apoio no quotidiano da organização de uma festa desta envergadura.
Por fim, agradeço a presença de todos. Como sabem, esta celebração não é pública. Todos os que aqui estão foram pessoalmente convidados. São por ele, pelo meu Pai, reconhecidos como amigos, companheiros, camaradas de armas. São por ele respeitados e acarinhados. Fazem parte da vida do meu Pai. O nosso obrigado a todos.
Apesar de gostar mais de falar de improviso, optei por escrever e ler este papel. Tive medo de não aguentar. E mesmo assim… vamos lá ver! Os tempos não estão fáceis e tenho a emoção e a sensibilidade à flor da pele. É uma das heranças do meu Pai. Como ele costuma dizer quando se refere às crianças, a qualquer criança, tive medo de ficar “com as pernas partidas”, isto é, sem defesas.
Muito do que aqui vou dizer sobre o meu Pai, é igualmente extensível à minha Mãe. Somos uma família unida por laços absolutamente indestrutíveis pelo amor, pela adversidade, pela luta e pela tragédia. Provavelmente, quando a minha Mãe fizer 90 anos, irei repetir grande parte do que hoje, aqui, vos vou dizer.
Esta festa de aniversário do meu Pai é-lhe devida há 46 anos. 1968 foi o ano em que o meu Pai completou 44 anos de idade. Foi o ano em que foi libertado. Às 6 horas da manhã do dia 1 de Janeiro desse ano, numa madrugada escura e gelada, abriu-se o portão do Forte de Peniche e saiu um homem ainda jovem, mas aparentemente envelhecido, silencioso e de boca crispada. Galgou o lambril inferior da porta e de imediato se ouviu o som forte do seu encerramento brusco. Cá fora, a minha Mãe e 4 miúdos ansiosos e nervosos.
Nesse ano, para festejar a sua saída da cadeia e o seu aniversário, os meus pais quiseram organizar uma festa com os amigos, no dia 24 de Maio, na Casa da Horta, a casa grande do meu avô. A PIDE proibiu a realização da festa. Era uma reunião perigosa e subversiva. A alegria da recém-readquirida liberdade esbarrou logo na ingenuidade “telefónica” dos organizadores e no medo enorme que a PIDE tinha do meu Pai e do que ele representava ou podia representar.
Este almoço de aniversário em que nos encontramos, por circunstâncias diversas e adversas da vida, levou 46 anos a preparar. Mas para nós, nunca ninguém tanto o mereceu.
Meu Querido Pai João:
Era assim que nós os quatro, seus filhos miúdos, iniciávamos as cartas que lhe escrevíamos durante os seus 6 longos anos de cadeia. Não era um qualquer “querido pai”. Era o Pai João, o nosso Pai e de mais ninguém.
E essa sim, apesar de o Pai ser completamente avesso à propriedade material, é uma propriedade verdadeiramente inalienável e intransmissível.
Nem sempre foi fácil sermos filhos dos nossos pais. Em Janeiro de 1962, eramos todos muito pequenos, fomos literalmente despertados, a meio da noite, para a luta antifascista. Desde muito cedo que a linha divisória entre o BEM e o MAL ficou traçada na nossa matriz.
Quero aproveitar esta oportunidade, a celebração dos 90 anos do meu Pai para, em público, agradecer em nosso nome, em nome da família Varela Gomes, a todos os que nesses anos de dificuldades nos deitaram a mão, nos aguentaram, nos deram guarida, comida, solidariedade e, principalmente, amor. Especialmente a todos os nossos TIOS, com particular destaque para o Tio Fernando. Quero também lembrar os Tios já falecidos, que nunca nos falharam: Ticha, Luís, Francisca e Cândida. Acima de todos, queremos agradecer ao nosso Avô Joaquim, para a minha geração o verdadeiro patriarca e senhor do castelo encantado que era a Casa da Horta. Temos para com todos uma dívida que nunca poderá ser saldada.
Ser filho de alguém que é reconhecido por Herói por muita gente… e por inimigo figadal por outra tanta (felizmente, em número menor), provocou sentimentos e reacções contraditórias em todos nós. Durante muito tempo, antes de pronunciarem o nosso nome, fomos sempre apresentados como sendo filhos de… e de…E se caíamos na asneira de dizer primeiro o nosso nome, vinha logo a pergunta certa: “É filho ou filha de…?”. Tivemos de percorrer a vida e o caminho da maturidade para encarar esse facto com serenidade.
O meu Pai, para nós, é perfeito… apesar de todos os seus defeitos, que me escuso de enumerar por não ser isso que aqui nos trouxe! Nós os quatro sempre tivemos por ele um imenso e profundo respeito, admiração e amor. Para o meu irmão Chapi, que lembro com uma enorme saudade que nunca se apaga, estes sentimentos eram absolutamente incondicionais e inabaláveis.
O meu Pai e a minha Mãe ensinaram-nos a coragem e a gramática; a lealdade e a matemática; a frontalidade e a geografia; a honestidade e a filosofia; a solidariedade e a história; a responsabilidade e a literatura; a generosidade e a físico-química. Alimentaram-nos, vestiram-nos, educaram-nos, acarinharam-nos. Proporcionaram-nos livros, filmes, conversas, reflexões, teatro, dança, viagens. Ensinaram-nos a fazer pela vida e a ser pessoas úteis e activas, quase desconhecedoras do significado do verbo “desistir”. Onde até a escolha da morte pode ser e foi uma forma de afirmação e de resistência.
Ensinaram-nos a lutar! Mostraram-nos o lado certo da barricada! Num instante passámos do mundo dos índios e dos cow-boys, para o mundo dos explorados e oprimidos, de um lado, e dos exploradores e opressores do outro. E nunca, em nossa casa, houve um momento, um instante sequer, de hesitação sobre o lado certo da vida, o caminho que devia ser percorrido. A vida foi mais pesada, é certo, mas foi e é uma vida que merece ser vivida.
PAI: a sua vida e a sua luta foram e são, por inteiro, merecedoras de todo o nosso apoio e respeito.
É certo que provocaram ódios irracionais e perseguições arbitrárias e injustas.
É certo que o ter estado às portas da morte, a prisão (antes e depois do 25 de Abril) e os diversos exílios (antes e depois do 25 de Abril), nos roubaram muitos anos de convívio e de aprendizagem, de amor e de vida familiar.
Mas o seu legado de coragem, de coerência, de honestidade e de luta é incomensuravelmente mais importante e muitíssimo maior do que as adversidades e revezes passados.
E sem nunca querer nada em troca. Sem nunca querer benesses ou reconhecimentos hipócritas. Sem nunca querer tirar dividendos ou vantagens. Antes pelo contrário!
PAI: O seu exemplo está marcado bem fundo nas nossas vidas e no nosso carácter. Nas nossas, seus filhos, e na dos seus netos. Os seus netos tiveram o privilégio de poder contar sempre consigo. De poder passar consigo uma infância de que nós, seus filhos, fomos espoliados. E o amor, a atenção, a disponibilidade, a brincadeira educativa e o apoio constante dispensado aos seus netos foram para os seus filhos a compensação dos anos que nos roubaram. E para os seus netos, algo que será, para sempre, insubstituível.
Passados 90 anos de vida e 52 anos sobre a sua prisão, infelizmente não podemos dizer que o mundo e o país são aquilo por que lutou toda a vida. Mas dizemos com toda a firmeza que empenhou toda a sua vida para os tornar melhor e mais justos. Que arriscou a sua vida para conquistar a liberdade e para acabar com os parasitas e com a exploração de quem trabalha.
Termino com alguns curtos excertos da defesa por si apresentada na barra do tribunal fascista, o Tribunal Plenário da Boa-Hora, no julgamento da Revolta de Beja. Continuam actuais, são o espelho do seu carácter e marcaram decisivamente as escolhas e a vida de todos nós:
(e cito) “…Mas se a caminhada tem sido penosa, se numerosas têm sido as baixas e pesados os sacrifícios, algo de extremamente precioso se conquistou para cada um de nós e para a colectividade: uma nova fraternidade que foi forjada na luta comum travada sem tibiezas nem renúncias….”
(e mais à frente) “…E é esse laço fraterno que me fica unindo a Vocês, meus companheiros em Beja na madrugada do primeiro dia de 1962 e que através de 30 meses de prisão aqui trouxeram uma inalterada fé e inquebrantável ânimo, que nos liga a todos que em Portugal não temem e que aqui ergueram uma voz firme e não ambígua…”
(segue mais abaixo) “…E se na primeira fila de resistência tem sempre havido representantes de todos os quadrantes doutrinários, é justo destacar os comunistas portugueses pela sua indefectível presença e avultado quinhão de sofrimento. O que faço à vontade, pois que nem a PIDE, com todo o seu fanatismo inquisitorial, me conseguiu vestir esse sambenito…”
(e finaliza) “…Ao abandonar esta barra, o meu mais fervoroso voto, o meu apelo, é que, quanto antes, outros triunfem onde nós fomos vencidos, pela salvação da nossa Pátria bem amada.”
Casa do Alentejo, Lisboa, 24 de Maio de 2014
Geninha Varela Gomes

8 de dezembro de 2013

3º C.O.D. - um testemunho 40 anos depois

Intervenção de Vítor Dias
na iniciativa sobre os 
40 anos do 3º C.O.D.
7.12.2013
Aveiro

Queria começar naturalmente por agradecer às entidades promotoras desta iniciativa, que saúdo fraternalmente, o convite para participar nesta evocação e reflexão em torno de uma grande batalha democrática que há 40 anos teve um enorme alcance, um poderoso significado e relevantes consequências no curso da luta antifascista até à conquista da liberdade e à inesquecível Revolução de Abril.

Permitam-me também que sublinhe a muito justa participação na promoção desta iniciativa da revista Seara Nova, porque, para além do seu longo papel na resistência à ditadura, a sua redacção foi um importante pólo operacional e político na preparação do 3º Congresso da Oposição Democrática e é à Seara Nova que ficámos a dever o autêntico serviço público democrático da edição em vários volumes das conclusões do Congresso.

Queria ainda, em fim de preâmbulo, manifestar o meu apreço pelo momento de evocação e homenagem por Flávio Sardo a Mário Sacramento, grande figura da gesta da resistência antifascista e de intelectual comunista que integra a justo título uma valiosa galeria de intelectuais que deram uma notável contribuição para a força, prestigio e enraizamento do PCP na sociedade portuguesa.

Como creio que todos podem calcular os protagonistas, mesmo que modestos, de acontecimentos como o 3º COD,  deparam-se sempre com o problema de, ao falarem sobre ele 40 anos depois, se escolherem repetir pelo menos em parte análises e balanços feitos à época (e também mais tarde, como é o caso da importante comunicação de José Tengarrinha em 1998, aqui nesta cidade, na celebração do 25º aniversário do 3º COD), e nos quais se continuam a reconhecer, poderem de alguma forma maçar os seus contemporâneos embora, por outro lado, as grandes linhas de força dessas análises passadas pudessem ser úteis para um público mais novo ou menos idoso.

O casamento de um assumido embaraço na determinação das matérias a abordar com as minhas próprias limitações levam-me pelo caminho de vos apresentar apenas uma desenvolvida anotação relativa a uma questão ou abordagem que me parece fulcral.

Antes dela, dizer-vos porém que, se tivesse optado antes por seleccionar  um conjunto de fragmentos acessórios,  aqui estaria a falar, por exemplo:

  • sobre o 3º Congresso enquanto emanação directa  (graças à concordância dos democratas de Aveiro) das estruturas as oposição democrática que, ao contrário do que terá ocorrido no periodo 65-69, mantiveram entre 69 e 73 uma actividade estável;
  • sobre como me parecem erróneas e pouco informadas afirmações que põem em contraste, de um lado, a útil e interessante comunicação apresentada por Medeiros Ferreira sobre a participação das Forças Armadas na solução do problema político português e, de outro lado, as Conclusões do Congresso (que, segundo alguns, padeceriam de falta de capacidade premonitória), matéria em que tentaria explicar por que razão, a meu ver, não seria adequado o 3º COD pronunciar-se sobre a escaldante e nada consensual questão das vias para o derrubamento do fascismo:
  • sobre como, com 47 anos de experiência de repressão, no seu último ano de vida o regime ainda conseguiu «inovar» e refinar os constrangimentos e limitações à oposição nas suas farsas eleitorais, designadamente quando nas eleições de Outubro de 1973 instituiu que só podiam falar nas sessões os candidatos efectivos, que nenhum candidato podia falar fora do distrito onde concorria e sobretudo quando publicou, a 12 dias do início da campanha, um decreto-lei  que estabelecia a perda de direitos políticos por cinco anos para todos os candidatos e membros das Comissões Eleitorais que desistissem de ir às urnas ou apelassem à abstenção;

  •  ou ainda sobre como a leitura dos nomes dos mais de 500 membros da Comissão Nacional ( e não 60 como por gralha se diz numa obra recente) e a ampla participação no Congresso, mesmo sendo apenas a parte visível de um icebergue, revelaram a primeira – a composição da CN - que a oposição democrática dispunha dos quadros e da massa crítica que viria a permitir um feito um pouco esquecido que foi, imediatamente a seguir ao 25 de Abril e num quadro de corajosa desfascização, assegurar a administração corrente do Estado e a vida sociedade portuguesa, sem perturbações de maior; e a segunda – a ampla participação nos trabalhos – que revelava que, com particular destaque desde meados dos anos 60,  se tinha formado um numeroso e poderoso (perdoem a expressão, que aliás detesto) «exército político» que, conquistada a liberdade e sem necessidade de minuciosas orientações, se empenhou e garantiu de forma decisiva o que então chamávamos as tarefas de democratização da vida nacional.


Entrando agora sim na minha única ou principal anotação, ela visa salientar que, havendo obviamente importantes diferenças substantivas, organizativas e de contexto entre o II Congresso Republicano em 1969 e o 3º COD em 1973, o ponto nodal de comparações e verificação de mudanças e evoluções é entre as propostas programáticas e a arrumação de forças e correntes políticas no 3º Congresso e as que se haviam verificado nas eleições de 1969 (pelo menos, como é sabido, em 3 distritos), estas em decorrência directa das diferentes análises e atitudes que, no seio da oposição democrática, se manifestaram aquando do momento-chave da chegada de Marcelo Caetano a Presidente do Conselho em 1968.
Possivelmente, se perguntados sobre qual foi a posição e análise do PCP em contraste e divergência com a então manifestada por outros sectores oposicionistas, muitos democratas responderão que se lembram bem das expressões «continuação do salazarismo sem Salazar», «operação ou manobra de demagogia liberalizante» destinada, segundo o PCP, a alargar interna e externamente as bases de apoio ao regime, dividir a oposição, isolar os comunistas e salvar o essencial do regime) e que constaram do comunicado do Comité Central  do PCP de Setembro de 1968. Mas talvez muito menos se lembrem com nitidez de outras afirmações que, inseparáveis das primeiras e , a meu ver, a anos-luz de qualquer fixismo ou rotina de análises, sublinhavam que «não se deve perder de vista as dificuldades actuais do regime que abrem novas perspectivas ao movimento democrático nacional» e que enfatizavam «a necessidade de aproveitar audaciosamente a nova situação para quebrar o imobilismo político, exigir o cumprimento de quaisquer promessas demagógicas do governo, imprimir um novo curso à vida política, impulsionar a acção política e a luta popular de massas».

E é minha firme convicção que foi a aplicação perseverante e audaciosa desta linha política que inspirou toda uma série de lutas e acontecimentos dos mais marcantes até ao 25 de Abril, desde logo, sem desprimor para outros com diversificadas origens, os seguintes: 


  •  a crise académica de Coimbra em Abril e Maio de 1969 e outras corajosas lutas estudantis em Lisboa e Porto nos anos seguintes;
  • a intervenção combativa e fortemente mobilizadora das CDEs na farsa eleitoral de Outubro de 1969 com uma posição clara contra a guerra colonial;
  • a formação do Movimento Democrático de Mulheres ainda em 1969 na sequência ds sua organização especifica no quadro das CDE;
  • - a criação em Novembro de 1069 do MJT – Movimento da Juventude Trabalhadora;
  • a constituição no final de 1969 da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos;
  • a formação da Intersindical em Outubro de 1970 e o posterior e vasto movimento de acções e de lutas conduzidas pelas direcções sindicais da confiança dos trabalhadores;
  • a criação, como resultado directo de decisões de estruturas CDE, de um conjunto de cooperativas livreiras (como hoje se diria, factores de sociabilidades na resistência e pontos de apoio ao trabalho político) que logo o governo veio combater com o DL 52o/71 e que viriam a ser encerradas em 1972, após o que, na minha suspeitíssima opinião, constituiu uma mais brilhantes e criativas lutas legais dos últimos anos do fascismo;
  • o próprio inicio das acções armadas da ARA em Outubro de 1970;
  • a fundação da União dos Estudantes Comunistas em 1972 contribuindo para um renovado impulso para as lutas estudantis;
  • e finalmente, sem esquecer a vaga de greves operárias dos primeiros meses de 1974, naturalmente o 3º Congresso da Oposição Democrática de 1973 (em que a decisão de manter a romagem é uma pedra de toque de toda a orientação e atitude que referi atrás) e a intervenção na farsa eleitoral de Outubro de 1973 defrontando um impressionante vendaval repressivo e que marcaram a recomposição da unidade das principais correntes antifascistas (verdade se diga, com a excepção do que, por facilidade de expressão, podemos chamar os grupos de Jorge Sampaio e de Isabel do Carmo, que se afastaram por divergências de natureza substancial). Não se devendo, quanto a mim, esquecer entretanto que a arrumação de forças não pode ser vista pelos olhos e critérios de hoje e que tem de ser justamente valorizada a contribuição de muitas centenas de democratas que, à época, não tinham uma expressa ou definida vinculação partidária.
  • sendo ainda de referir - e trata-se de um ponto importantíssimo - a influência muito positiva que estas duas últimas grandes batalhas tiveram na consciencialização política  e fixação de objectivos programáticos do MFA, como entre outros, o Almirante Martins Guerreiro tem impressivamente testemunhado em diversos colóquios.

Ao sublinhar estes aspectos não descuro a importância que para o fracasso da operação desenhada por Marcelo Caetano em 1968 tiveram o atoleiro da guerra colonial ou as pressões dos «ultras» mas estou solidamente convicto que foi esta orientação combativa que deu a maior contribuição para o referido fracasso.

Se não vos chocarem duas sínteses mais prosaicas, então eu diria que primeiro a maioria e depois a totalidade do campo democrático já não se contentava com o pouquíssimo que o fascismo tinha para oferecer ou conceder e que o que se passou foi que onde o marcelismo abria uma frincha numa porta, nós metíamos logo o pé, a seguir queríamos meter a cabeça sempre com o nunca abandonado de fazer passar o corpo todo.

Talvez alguns historiadores digam, e já o disseram, que esta é a história do caminho para uma nova hegemonia na oposição democrática, no sentido rigoroso do termo e não no sentido pejorativo que correntemente o degradou) embora para mim a base fundamental dessa hegemonia já existisse em 1969.

Mas há um ponto que é vital que fique claro: não estou aqui a evocar ou celebrar a vitória de ninguém sobre ninguém mas sim a dar o meu testemunho sobre o que creio ter sido o caminho andado e feito e a adesão democrática e livremente conquistadas para ideias, análises, orientações e atitudes que, passo a passo, a vida ia comprovando serem as mais justas, mais necessárias e mais eficazes.

Aliás peço que aceitem como autêntico e sincero o meu testemunho de que, em relação a personalidades de outros quadrantes políticos (não todas evidentemente), talvez por causa de uma coisa a que chamaria «ética da resistência», o que mais guardo na memória não são os conflitos e divergências, sejam os de 68/69 sejam os do pós-25 de Abril, mas os combates que, com lealdade e fraternidade travámos juntos.

É agora tempo de concluir com três afirmações:


- a primeira é que têm o mais alto valor todas as iniciativas de preservação da memória histórica da resistência antifascista mas estou certo de que nenhum de nós se esquece que foi na revolução de Abril que se inscreveram as mais belas páginas das nossas vidas e se levantaram do chão os melhores sonhos e realizações do povo português;

- a segunda é que, para ser sincero, dói e causa muita amargura que, quarenta anos depois do 3º COD e quase 40 após o 25 de Abril, ver a sanha destruidora e reaccionária de uma política que está arrasando o país, devendo eu confessar que nunca na vida julguei que chegasse um dia em que, sob pena de assustar e desanimar, nem sequer possa dizer publicamente toda a verdade sobre as terríveis consequências futuras do crime contra o nosso povo e a nossa pátria a que estamos a assistir mas que combatemos sem descanso;


- e a terceira é que, assim como nunca soube responder ou me ocupei muito com a interrogação sobre quando o fascismo cairia, também hoje não sei quando conquistaremos – e para mim aqui é que bate o ponto e não simplesmente num novo governo - a política efectivamente alternativa à que aqui nos conduziu e, de ciência certa, só sei que não há outro caminho que a persistência na esperança e na luta.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Nota complementar: só para que fique escrito em algum lado, creio ser útil referir que, durante o painel com historiadores, a muito valiosa e bem preparada intervenção do Prof. Reis Torgal incluiu incidentalmente uma referência a que em 1973 o «interesse pelas eleições» já seria menor, referindo que o número de distritos em que em 1973 foram apresentadas candidaturas democráticas foi muito inferior ao número de distritos de 1969. Pedi a palavra para esclarecer algo que não vem em nenhum documento e que, por si só, demonstra a importância que a história oral pode ter. Com efeito, dei o meu testemunho de que essa diferença de candidaturas se ficou fundamentalmente a dever à publicação do decreto, a 12 dias do inicio da campanha, que fazia perder por 5 anos os direitos políticos a quem desistisse, pois em numerosos distritos (noutros não) muitos advogados com considerável peso distrital acharam que iam ficar impedidos de exercer a sua profissão e decidiram não entregar as candidaturas nesses distritos. Quarenta anos depois, não vale a pena esconder que se tratou de um momento de certa tensão nas fileiras da oposição democrática em torno de uma questão sem dúvida delicada mas que, aparecendo a poucos dias da entrega das listas, não permitiu a sua superação, designadamente através da designação de novos candidatos em substituição daqueles estimáveis advogados democratas. Pareceu-me que o Prof. Reis Torgal compreendeu a pertinência da minha informação.

1 de outubro de 2013

José Tengarrinha sobre Bento de Jesus Caraça

José Tengarrinha
na Sessão Comemorativa do Centenário
do Nascimento de Bento de Jesus Caraça
promovida pela CGTP em 
18 de Abril de 2001



INTERVENÇÃO, LIBERDADE CRÍTICA E COMPROMISSO

As primeiras palavras são para a CGTP-IN, organizadora desta sessão e promotora de um vasto conjunto de iniciativas comemorativas do centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça. É de elementar justiça reconhecer, também, que o empenho desta central sindical tem sido fundamental, não apenas agora, mas nos últimos anos para que permaneça mais viva entre nós a memória e o estimulante exemplo do grande cientista e humanista.   
Foi-me pedido que, nesta sessão, falasse sobre a intervenção política de Bento de Jesus Caraça, à luz dos condicionalismos em que decorreu. O que é, também, falar do militante cultural, como duas faces indissociáveis, em ligação permanente e profunda com as incertezas e os desalentos, as esperanças e os dramas do mundo e do País nos tormentosos tempos em que viveu. Com o sentido permanente da necessidade de compreender para transformar, nessa militância constante com que encarava a sua intervenção na sociedade a favor do Progresso, da Dignificação Humana e da  Liberdade. Assim, este homem que da Matemática fez profissão, não a encarava como uma construção formal, fora da vida, mas como uma construção essencialmente humana, em permanente aperfeiçoamento, como toda a Ciência, ao serviço da libertação e da felicidade dos homens [1] . Parece fácil encontrar, neste plano, uma síntese das suas múltiplas vertentes como cidadão, como intelectual, como pedagogo. Mas descortina-se que dentro de um curso central firme e coerente há convergências estreitas, mas também distanciamentos reflexivos, nunca perdendo a perspectiva mais ampla de quem intervém para a mudança da sociedade, mas não com um sentido meramente pragmático e imediatista. Por isso, a dimensão política da sua intervenção é inseparável de uma permanente preocupação formadora, combinando objectivos de diferentes temporalidades.
Atribuía, assim, à Ideia o sentido tanto mais revolucionário quanto melhor interpretasse as aspirações gerais e essenciais da Humanidade e, ao mesmo tempo, conforme as circunstâncias do momento. Por isso, na sua intervenção política tinha como objecto não o Homem – que no abstracto legitimaria tão graves perversões – mas os homens, na sua dimensão variada e concreta. E por isso, igualmente, confere à intervenção política um denso conteúdo ético, que contrasta com a cultura política dominante no final da Primeira República e, mais ainda, no Estado Novo.
O estreito entrelaçamento entre o homem político, o homem de cultura, o  pedagogo – nem sempre num processo simples, como se disse - tem no cerne um conceito não elitista da cultura. Assim o praticou desde a direcção da Universidade Popular Portuguesa em 1919, passando pela criação da pioneira Biblioteca Cosmos (do editor e seu amigo Manuel Rodrigues de Oliveira), de 1941 a 1948, com 114 títulos e 6 990 exemplares de tiragem média!
Será errada, por isso, a meu ver, a inspiração iluminista que alguns atribuem ao seu conceito de cultura. Essa é, sim, uma das principais contradições em que se debatem os “seareiros”. E este é, também, um dos vértices que melhor definem a natureza da intervenção cultural e política de  Caraça.  Conceitos opostos de que decorrem, naturalmente, pensamentos e comportamentos políticos divergentes. Na verdade, o discurso elitista da Seara Nova (Sérgio, Cortesão, Proença, entre outros) pouco tem a ver com democracia. Poderemos mesmo dizer que é a base teórica da ditadura “esclarecida” e “de competência”. Por isso, é supra-partidária.  
Exactamente o oposto de B. J.C., para quem a democracia se sustenta, por um lado, na ampla capacidade de intervenção esclarecida dos cidadãos e, por outro, na organização partidária como instrumento indispensável dessa intervenção. Contrariamente aos “seareiros”, Caraça é, pois, um homem “de partido”. As coordenadas fundamentais do seu empenhamento cívico só serão compreensíveis no quadro de um compromisso partidário, embora aí sempre tivesse mantido toda a abertura e liberdade crítica [2] .  
Mas em que quadro partidário? O republicanismo liberal, com o seu pensamento elitista, a que correspondia uma táctica revolucionária predominantemente “putschista”, não poderia ser aquele com que se identificaria. O Partido Socialista, afastado das massas populares e longos anos inerte até se extinguir, fora uma amarga desilusão para os jovens socialistas marxistas, pelo que não poderia ser igualmente opção. A formação profundamente democrática de B. J. C. , o reconhecimento da necessidade de uma intervenção política maciça dos cidadãos, que nessa prática tinham a fonte principal da sua consciência cívica, e a sua dominante ideia do papel das massas populares e nomeadamente do proletariado na construção da sociedade futura conduziam-no, logicamente, ao Partido Comunista. Se não fossem suficientes os testemunhos já apresentados neste sentido, bastaria analisar o cerne do seu ideário e comportamento políticos para o admitirmos.
Quanto às formas dessa adesão ao PCP obviamente que, naquelas condições excepcionais, não podem ser identificadas com as actuais. Por um lado, o trabalho unitário que Bento Caraça predominantemente desenvolvia, aconselhava – como sempre em tais circunstâncias – a ocultar as suas ligações partidárias, mesmo nos círculos políticos com que se relacionava. Por outro lado, a ligação ao PCP, em tempos de tão dura clandestinidade, impedia qualquer formalização documental, frequentemente não permitia contactos regulares, por vezes espaçados meses ou até anos, dependentes de múltiplas contingências repressivas e conspirativas, e nem sequer exigia a integração num organismo com funcionamento permanente. O que era indispensável, sim, é que estivesse disponível para contactos com os dirigentes partidários, quando possível e conveniente, cumprisse a orientação consigo acordada e que esta estivesse em consonância com a estratégia geral do Partido – o que parece não haver dúvidas ter-se verificado.  Era, afinal, o único meio orgânico de que B.J.C. dispunha para se ligar às massas populares, que sempre estiveram no centro da sua acção e  pensamento políticos e pedagógicos [3] .




[1] Obriga-nos a repensar  Marc Bloch, quando este diz, expressamente: “Um grande matemático não será menor, suponho, por ter atravessado com os olhos fechados o mundo em que vive. Mas o erudito que não tem o gosto de olhar à sua volta nem os homens, nem as coisas, nem os acontecimentos merecerá talvez, como dizia Pirenne, o nome de um útil antiquário. Seria sensato que renunciasse ao de historiador” (Cf. Apologie pour l’Histoire ou métier d’historien, 4ª ed., Paris, Armand Colin, 1961, p. 14). Ora precisamente B.J.C. defende que o matemático, como qualquer outro cientista, não pode em circunstância alguma deixar de estar ligado à vida, à actualidade, como diz na nota crítica sobre “A Evolução da Física, de Albert Einstein e Leopold Infeld”: “Não transparece da leitura a mais pequena relação do trabalho do físico com a vida do seu tempo. Parece que o cientista, investigador e interpretador da realidade física vive à parte, numa célula privilegiada do espaço-tempo, onde não chega o rumor das lutas e dos sofrimentos dos homens, das suas aspirações, dos seus fracassos e dos seus triunfos, da maneira como trabalham e se organizam” (In semanário O Diabo, nº223, 31-12-1938, reproduzido em Conferências e Outros Escritos, 2ªed., Lisboa, 1978, p. 267).
[2] Estes conceitos opostos de cultura  são bem visíveis na polémica entre Caraça e António Sérgio, nas páginas da Vértice, entre Novembro de 1945 e Maio de 1946.
[3] Não é assunto de somenos importância, este. Longe de reduzir-se à questão da apropriação de Caraça por tal ou tal força partidária. Deveremos afirmá-lo, em primeiro lugar, por uma razão simples: tudo nos parecendo concorrer para a verdade da conclusão a que chegámos, não há razão para ocultá-la. Em segundo lugar, porque através do conhecimento desta vinculação partidária se compreendem melhor as razões profundas de opções que B.J.C.  foi tomando ao longo da sua intensa vida política, nomeadamente o fundamento do seu ideário não apenas de combate ao regime fascista mas, sobretudo, de transformação do sistema social e da estratégia revolucionária que defende desde finais da década de 1920 até à morte; a unidade do seu percurso político encontrando aí um dos mais fortes elos. E, em terceiro lugar, porque não vejo em que é que a real universalidade da figura de Bento Caraça venha a ser afectada  por se afirmar o seu compromisso partidário; numa perspectiva histórica esta é questão absurda. Estamos aqui como historiadores, e nessa qualidade afirmarmos o que nos parece cientificamente correcto à luz de factos não falseados nem ocultados. Não é aos políticos que compete fazer História, ao sabor de conveniências pessoais ou conjunturais. Nem aos historiadores buscar falsos consensos, como aquele que em face de alguém que dizia serem dois mais dois quatro e outro que afirmava serem seis, esforçadamente afirmava serem, afinal, cinco.
                                  
                               “A descida aos infernos”
Embora ao longo da vida as traves-mestras do seu pensamento e comportamento políticos tenham permanecido constantes no essencial, embora os principais temas nunca tenham deixado de emergir com insistência, julgo que poderemos reconhecer três principais fases correspondentes a diferentes preocupações dominantes em conjunturas distintas.
Inicia-se no período entre as duas guerras, que designou como “a descida aos infernos”  e que intensa e dramaticamente viveu. É a sua primeira sistemática intervenção na vida política. Lá fora, e também em Portugal, eram os efeitos da grande depressão económico-financeira do  fim da década de 1920 e inícios da de 1930, a profunda crise social atingindo particularmente as camadas médias que tinham sido até aí os principais suportes dos sistemas políticos; era o advento de múltiplos fascismos ma Europa; era a implantação da República em Espanha, na base de uma Frente Popular, e também a Frente Popular em França; era a experiência soviética impondo-se cada vez mais às correntes progressistas – apesar dos  excessos que B.J.C. e companheiros mais ou menos claramente lhe apontavam – como via de libertação dos oprimidos; eram as crescentes ameaças bélicas de quem desenvolvia as mais poderosas indústrias do aço e química da Europa.
Internamente, desde finais de 1929, dera-se a irreversível separação das águas no campo republicano (republicanismo liberal e esquerda republicana), inevitável após as tentativas revolucionárias entre 1927 e 1931. Foi um quadro de contestação quase permanente contra a ditadura, sobretudo na Grande Lisboa e Porto, em que eclodem cinco movimentos  revolucionários, com envolvimento de militares e civis armados. Chega-se a extremos de barricadas nas ruas, ataques aéreos e bombardeamentos de artilharia sobre as cidades, fuzilamentos sumários, milhares de mortos e feridos, de presos e deportados. Em consequência, o endurecimento repressivo, com amplos saneamentos civis e militares após a subida de Salazar à chefia do Governo, provoca a diminuição do protagonismo do republicanismo político-militar. A institucionalização do Estado Novo, entre 1932 e 1934, ainda mais marginaliza a oposição republicana na cena política nacional. E é assim que, durante a guerra civil de Espanha, a resistência activa ao Estado Novo apenas contará com a intervenção dos comunistas e anarco-sindicalistas.
Era uma nova fase que se abria no quadro da oposição política ao Estado Novo. O republicanismo de esquerda perdia a absoluta hegemonia política no quadro da oposição ao fascismo.  E, em consequência das leis corporativas de Setembro de 1933 que ilegalizaram os sindicatos livres (a chamada "fascização dos sindicatos"), é o Partido Comunista, com o seu aparelho clandestino, que melhor se adapta às novas condições da luta. Sob a liderança de Bento Gonçalves, desde 1929, repudia o reviralhismo republicanista (ou “putschismo”) e procura afirmar autonomia de objectivos e de actuação.
Neste complexo quadro, a luta de B.J.C. dirige-se em dois sentidos, que se apresentavam como duas vertentes da mesma questão: contra a guerra e contra o fascismo. Inspirava-se, tal como toda a sua geração, em Romain Rolland, cujos apelos, que ecoaram por todo o mundo, motivariam as reuniões da Frente Mundial contra a Guerra, em Amesterdão (1932) e Paris (1933). Com um grupo de activistas, entre os quais José Rodrigues Miguéis, escreve intensamente em jornais legais e publicações clandestinas, desenvolve protestos e alertas públicos, participa na direcção da Liga Contra a Guerra e Contra o Fascismo, extensão nacional do Comité Mundial contra a Guerra e o Fascismo. Esta Liga, de inspiração comunista, escolhe Bento Caraça como seu representante na Frente Popular Antifascista de 1935 a 1937.
Mas essa luta contra a guerra não a limita a um simples confronto entre belicistas e antibelicistas, confere-lhe maior densidade política e social como bem ficou expresso no dramático artigo publicado no jornal Liberdade em Novembro de 1932. Diz ele:  ...”Actuar, sim, mas com um plano; nada de esgrimir contra moinhos; alcançar os pontos de enraizamento do mal; abandonar o trapo vermelho para atingir a mão que o manobra. Só assim a multidão dos pacifistas deixará de ser, na frase justa de Einstein, um rebanho de carneiros lamurientos num redil”. O seu combate teórico é por isso, também, fortemente dirigido contra os nacionalismos e as suas agressivas afirmações, ou mesmo contra esse indefinido “espírito europeu”, redutor da essência do humano na sua dimensão universalista.
Esse amplo movimento antibelicista e antifascista, que se espalhou por toda a Europa, assumia assim em Portugal um significado particular, que Bento Caraça equacionou com perfeita lucidez. Mostrava à evidência a necessidade  de dar respostas fortes e globais às questões cruciais do fascismo e do capitalismo monopolista e imperialista, a necessidade de conceber uma paz construída na base da justiça social e da fraternidade universal, a necessidade, por fim, de conceber um sistema político em que as camadas baixas tivessem os mais amplos direitos e em que se admitisse o papel criador e transformador das massas populares. Mostrava-se assim à evidência, igualmente, para além da ineficácia da estratégia revolucionária da oposição tradicional (bem evidenciada no fracasso das revoltas reviralhistas de 1927 a 1931), a desadequação do seu ideário às novas condições. Era a primeira grande ruptura com o predomínio oposicionista até aí exercido pelo republicanismo liberal e, sobretudo desde finais da década de 1920, pelo republicanismo de esquerda “seareiro”. Mas não se tratava apenas de uma nova estratégia ou de uma nova ideologia. Era, mais amplamente, uma nova cultura política que rompia com a tradicional e para a qual B.J.C. deu uma muito importante contribuição, diríamos mesmo, nalguns aspectos, decisiva.
                               A Unidade Antifascista   
A segunda fase do combate político de Bento Caraça é marcada pelo predomínio de uma estratégia revolucionária assente na unidade antifascista. Foi essa, aliás, a principal preocupação de toda a sua vida, para o que estava vocacionado com características pessoais particularmente favoráveis, como as de saber ouvir e recolher opiniões alheias, procurar entendimentos sem quebra de princípios fundamentais, capacidade de rever posições pessoais perante sugestões válidas, características que – como testemunharam alguns que com ele conviveram – se exprimiam tão claramente nos seus olhos como dois largos espaços de paz e compreensão humana.
Desde muito cedo participara em fugazes organizações como a Liga Antifascista, União Antifascista, Acção Antifascista, Pró-Pátria. Com efeito, já em 1933, face aos perigos de guerra, à irrupção dos fascismos na Europa e à institucionalização do Estado Novo se reconhecera a necessidade de uma ampla unidade dos diferentes sectores da Oposição em torno dos objectivos principais da luta contra a guerra e contra o fascismo. Mas as tentativas de republicanos e socialistas – como a Frente Única de Vigo – mostraram-se frágeis com a marginalização de comunistas e anarquistas que afirmavam influência crescente.
Enquanto noutros países, desde o início de 1933, se desenvolviam esforços para a constituição de frentes com a participação de comunistas, socialistas, social-democratas e liberais, em Portugal as forças oposicionistas nem tinham condições nem mostravam disposições nesse sentido. Sobretudo porque o reviralhismo, que ainda insistia pateticamente na táctica do “complot” e do “putsch”, continuava preso a fortes sentimentos anticomunistas.
Por fim, em Outubro de 1935, constituiu-se a Frente Popular Portuguesa, a cujo Directório pertence Bento Caraça. Nascera sob o ânimo da vitória da Frente Popular em Espanha e por impulso do Partido Comunista Português, mas não deixavam de ser visíveis as suas fragilidades. Não havia acordo nem sobre a táctica revolucionária nem sobre aspectos programáticos importantes, como a política colonial. A alteração do quadro internacional, com incidências em Portugal, e a fragilidade crescente do movimento anti-salazarista provocaram a desagregação do frentismo antifascista e, finalmente, a extinção da Frente Popular Portuguesa, em 1938-1939. Será preciso que se verifiquem alterações substanciais na cena internacional e nacional para que ressurja, mas desta vez com maior consistência, o movimento unitário antifascista.
Com a II Guerra Mundial dá-se uma transformação profunda  na Oposição em Portugal, criando condições favoráveis para uma nova plataforma da unidade contra Salazar. Sobretudo com o ambiente geral de luta antifascista e a esperança de uma vitória aliada.
Quanto ao movimento operário, que sofrera uma quebra entre 1933 e 1940, reafirma-se mais dinâmico a partir do aumento galopante da inflação e da miséria e do impulso da combatividade popular resultantes da guerra. Podemos dizer, assim, que uma relativa estabilidade do fascismo em Portugal é interrompida, sobretudo em consequência do crescente protesto operário, em 1941. Novo ciclo grevista decorre de 1942 a 1947, atingindo principalmente Lisboa e a Margem Sul. Só em Julho de 1943 estão em greve cerca de 50 000 operários, com grandes manifestações e marchas de fome. Também na década de 1940 grandes lutas camponesas no Alentejo e Ribatejo. É o Partido Comunista, reorganizado em 1941, que aparece como a força dirigente desse crescente movimento operário e camponês.  
Nestas condições, o Reviralhismo já não tem condições para marginalizar o Partido Comunista, que é aceite pelas outras correntes não só como parceiro de pleno direito, mas como impulsionador do movimento unitário. E não era apenas pela sua capacidade organizativa e adequados objectivos políticos, mas também por ser ele que estabelecia a articulação deste potente movimento popular com a Oposição Democrática.
Outras alterações favoráveis ocorreram no quadro partidário, assistindo-se ao recrudescimento da Oposição com organizações que se destacam da corrente republicanista tradicional, preenchendo assim o vazio aberto pela dissolução do Partido Socialista em 1933. Destas, a mais destacada foi a União Socialista, fundada em fins de 1943, por impulso principal de José Magalhães Godinho. Mas ainda a velha linha republicana liberal emerge com alguma influência pelo prestígio de muitas das suas figuras sobreviventes e as referências ideológicas que se lhes reconhecia.
É neste novo quadro oposicionista que surge uma formação original na Oposição Democrática, o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), onde convergem todas estas forças, sem que, ao contrário do passado, alguma delas se apresente em posição totalmente hegemónica. Aqui, Bento Caraça tem ocasião para evidenciar um dos mais excepcionais traços da sua personalidade: firmeza de princípios conjugada com a largueza de ideias, num quadro de liberdade crítica e abertura à inovação, dando um magnífico exemplo de como a força das convicções não é inconciliável com o espírito crítico e a abertura a novas ideias e caminhos.
Com alguns amigos, B.J.C. contacta todos os sectores destacados da Oposição e promove uma importante reunião em fins de 1942 ou princípios de 1943 para estabelecer as bases da unidade e promover a criação de um movimento amplo, mas clandestino, empenhado na propaganda, mas também na resistência armada. Foi o início do processo que levaria à fundação do MUNAF, em finais de 1943. O programa deste, aprovado em Julho de 1944, e para o qual Bento Caraça deu importante contribuição, era a demonstração, naquele momento histórico, da capacidade de unidade das forças democráticas. A estratégia revolucionária dominante não era já a do “putsch”. Assim é entendido na reunião em casa de B.J.C., em fins de 1944, em que se constitui o comité revolucionário secreto, emanado do MUNAF, e dirigido pelo general Norton de Matos. O processo  de conspiração militar, quase constante de 1943 a 1947, já não é, porém, alheado da intensa agitação popular, sobretudo em Maio de 1944, Agosto a Outubro de 1945 e Abril de 1947.
                                           A “Guerra Fria”
A terceira e última fase da vida política de Bento Caraça decorre no pós-guerra em que, além das motivações anteriores, sempre presentes, outras emergem em novos contextos.
As condições externas do pós-guerra, aparentemente favoráveis ao fim dos regimes autoritários em Portugal e Espanha, as declarações ambíguas de Salazar, as gigantescas manifestações populares (como a de Lisboa em Maio de 1945) alimentavam as esperanças na via eleitoral, na auto-reforma do regime e na possibilidade da Oposição ser reconhecida como alternativa legal ao regime fascista. É este o sentido da criação do Movimento de Unidade Democrática (MUD), em Outubro de 1945, apoiado no clandestino MUNAF, e que será o arranque para uma das mais vastas, organizadas e vigorosas explosões cívicas que o nosso país conheceu sob o Estado Novo.
Nestas circunstâncias, os esforços políticos de B.J.C. no pós-guerra dirigem-se em três principais direcções.
Por um lado, os seus escritos, conferências e ensino vão no sentido de abrir o País às novas correntes políticas e culturais que haviam saído da derrota do nazi-fascismo, tentando aproveitar os ventos democratizantes que corriam na Europa. É esse um dos significados do documento saído da sessão do Centro Almirante Reis em que se defendia que a próxima Assembleia Nacional fosse constituinte, a fim de permitir que o texto fundamental normalizasse a vida nacional, nomeadamente nas relações entre o poder legislativo e o executivo.
Por outro lado, os seus esforços são orientados para contrariar a argumentação fascista de que a Oposição não tinha programa nem figuras que fossem alternativas ao Estado Novo. Através de artigos, entrevistas, conferências mostra a falta de fundamento dessa acusação, enunciando com clareza o que a Oposição propunha sobre a necessidade de planificação da economia nacional, distribuição justa do rendimento nacional,  protecção à criança, analfabetismo e plano do Ensino, saúde pública, democratização e racionalização das instituições de administração pública. Saliente-se a conferência  na Voz do Operário, em 30 de Novembro de 1946, sobre a situação da educação e da cultura em Portugal durante o Estado Novo.
Ao mesmo tempo, trabalha intensamente para o reforço da unidade oposicionista dentro do MUD, para o alargamento da unidade na acção entre os democratas, de modo a intervirem de uma forma mais concertada e ofensiva. Em 1945 é eleito para a Comissão Central e, após a reorganização interna, em 1946, passa a exercer as funções de vice-presidente da Comissão Central. Nesta altura, ainda o MUD era tolerado pelo regime.
Mas, logo a seguir, o governo fascista desmascara-se completamente, desencadeando uma violenta vaga repressiva. O agravamento da “guerra fria” dava argumentos a Salazar para endurecer a agressão, na ordem interna, aos inimigos que os aliados ocidentais enfrentavam na ordem externa. Assim, a ofensiva de Salazar era selectivamente dirigida contra os comunistas, relacionando o MUD com o clandestino MUNAF e acusando-o de estar dependente do PCP.
Bento de Jesus Caraça é então preso pela primeira vez (13 de Outubro de 1946) envolvido num processo colectivo sob a acusação de actividades subversivas, que era a justificação para ilegalizar o MUD. Então, também, por ter sido co-signatário do documento da Comissão Central do MUD sobre  a admissão de Portugal na ONU sofre um processo disciplinar e é demitido da Universidade, com Mário de Azevedo Gomes. Um vergonhoso processo que mostrou a brutalidade e arbitrariedade do regime fascista e provocou uma onda de indignação no País.
Entretanto, iam produzindo os seus efeitos no campo oposicionista os ataques repressivos dirigidos pelo governo fascista selectivamente contra o Partido Comunista. A convergência entre as diversas correntes da Oposição começa a quebrar-se e a tendência de quase todas elas é para fecharem o Partido Comunista num “ghetto”: uns, porque a colaboração com o PCP lhes traz ameaças mais graves para a sua segurança pessoal (medo que, depois, mascaravam com argumentos ideológicos); outros, na linha do republicanismo liberal, porque fazem renascer antigos preconceitos anticomunistas; e outros, ainda, na linha do republicanismo de esquerda, maçónico e socializante, porque têm esperanças em ser reconhecidos como oposição cordata e credível se libertos do incómodo aliado, chegando a sugerir a cessação de toda a actividade do MUD. Era o início da irredutível cisão na Oposição Democrática que se manterá, quase sem interrupção, até 1973.
Pelas suas características pessoais, tolerantes e abertas, B.J.C. seria dos poucos, porventura o único, capaz de estabelecer a ponte entre os campos oposicionistas cada vez mais desavindos. O principal das suas energias é dirigido nessa direcção. Mas sem perder o sentido dos princípios fundamentais. O documento mais significativo que então elabora é essa penetrante análise sobre “A Posição do MUD no Momento Político Presente” (12 de Outubro de 1947), na sessão comemorativa do 2º aniversário do MUD e em nome da sua Comissão Central. Aí, depois de denunciar a escalada repressiva do Governo, ataca os que propunham a suspensão total da actividade do MUD; pelo contrário, defende que devia forçar-se a legalidade, alargando quanto possível o espaço de intervenção da Oposição Democrática, como a melhor forma de esclarecer e mobilizar a opinião pública contra o regime fascista. Para os demissionistas, directamente diz: “Se tivéssemos desaparecido da cena política talvez já uma oposição dócil estivesse instalada em nosso lugar”. Apelava, ao mesmo tempo, para que a larga congregação de democratas que era o MUD não tivesse carácter ou preocupação de ligação partidária. Tal era, também, a orientação desde então expressamente defendida pelo campo democrático de esquerda onde se situava o Partido Comunista. Por isso, todo o documento defende que só a convergência dos democratas permitiria a vitória sobre o fascismo, terminando com um apelo à UNIDADE! por três vezes vibrantemente repetido. Em vão. As fracturas no campo democrático eram cada vez mais fundas. A “guerra fria” provocava confrontos virulentos e feridas dificilmente reparáveis dentro da Oposição.
O penúltimo acto é em Março de 1948, quando chamado à PIDE para lhe ser comunicada a extinção do MUD. E logo em 25 de Junho morre, sabendo embora, como tantas vezes dissera, que “as derrotas só existem aquelas que se aceitam” e só acaba quem desiste de lutar, só acaba quem não deixa sementes.