13 de fevereiro de 2013

Para quem fala de cor aqui fica o célebre « Ñovo Impulso»

Por um novo impulso na organização,
intervenção e afirmação política do Partido
Comunicado
do Comité Central do PCP
15 de Fevereiro de 1998


O Comité Central procedeu a um primeiro exame e balanço, em linhas gerais, quer da acção do Partido desde a realização do XV Congresso, em Dezembro de 1996, quer dos complexos e exigentes desafios que o Partido deverá enfrentar num futuro próximo.

Em resultado dessa análise, que inclui naturalmente indicações e preocupações há muito existentes mas, em alguns casos, tornadas mais visíveis pelos resultados das eleições autárquicas, o Comité Central propõe a todos os militantes e organizações do Partido o desenvolvimento de um vasto movimento de reflexão, debate, tomada de decisões e adopção de medidas, visando dar um novo e vigoroso impulso à concretização de orientações definidas no XV Congresso que se consideram essenciais para adinamização, renovação e maior eficácia política da organização e intervenção do PCP, e para a ampliação da sua influência na classe operária e nos trabalhadores, na sociedade portuguesa.
I

Uma perspectiva mobilizadora e combativa de afirmação,
crescimento e dinamismo do Partido
1. O Comité Central decide promover um esforço consistente e empenhado para, a todos os níveis da organização partidária, e tendo como ponto de partida um movimento geral de realização de assembleias das organizações e reuniões de militantes e de organismos, reanimar e renovar processos de trabalho e de funcionamento, e identificar as deficiências e insuficiências que mais afectam a acção do Partido. Trata-se de, na base indispensável e determinante da mobilização, da reflexão, da experiência e das opiniões de todo o colectivo partidário, apurar e definir as orientações e medidas que mais favoreçam o objectivo central de rasgar uma perspectiva mobilizadora e combativa de afirmação, crescimento e dinamismo do Partido, que seja sustentada por sua maior e melhor presença e intervenção na sociedade portuguesa.

2. Neste sentido, o Comité Central propõe que, de forma integrada, complementar e indissociável, sejam consideradas de imediato como grandes áreas de reflexão, intervenção e decisão prioritárias:
  • orientações e medidas de revigoramento e rejuvenescimento da organização do Partido, de alargamento da sua base militante e de maior responsabilização dos militantes visando um maior enraizamento e intervenção das organizações de base nas lutas, problemas e aspirações das classes e camadas sociais, dos sectores profissionais e das comunidades onde se inserem, e favorecendo, assim, o fortalecimento das organizações sociais e das lutas de massas;
  • desenvolvimento, nos diversos planos de intervenção e frentes de trabalho, de novas linhas de iniciativa política que favoreçam uma mais forte afirmação do PCP como partido de luta e partido de projecto, como partido dotado de uma estratégia integradora da sua intervenção política e social, como partido firmemente empenhado em impulsionar a agregação de forças, energias e aspirações democráticas e de esquerda, que é indispensável para a concretização de uma alternativa progressista à mera alternância entre PS e PSD na realização da política de direita;
  • medidas de fortalecimento e renovação da capacidade de direcção no Partido, com destaque, entre outros aspectos, para a melhoria da coordenação política e planeamento da intensa e diversificada actividade do Partido, uma maior e mais dinâmica elaboração e projecção das suas propostas e do seu projecto, a adopção de linhas de trabalho e medidas concretas que, tendo em conta as prioridades, ajudem ao avanço do Partido nas regiões, zonas e sectores de menor influência, a formação ideológica dos quadros, a dinamização e maior difusão do «Avante!» e, em geral, da imprensa do Partido, a criação de condições para a melhoria do trabalho do Comité Central.
3. Na área da organização partidária, o Comité Central propõe-se dinamizar a concretização das orientações traçadas pelo XV Congresso:
  • um forte impulso à renovação e rejuvenescimento das organizações e estruturas partidáriasonde, a par da procura de novas adesões, devem ser tomadas medidas para a integração orgânica de jovens militantes, de mulheres e dos camaradas que nos últimos anos vieram ao Partido, bem como uma maior atenção ao papel, acção e reforço da JCP;
  • um plano de acção para o reforço da organização e intervenção junto dos trabalhadores, com medidas concretas, meios e quadros, linha de luta reivindicativa e iniciativa política, no sentido das conclusões da Conferência Nacional realizada em Novembro de 1994;
  • um criativo e diversificado trabalho de organização e iniciativa política para elevar a militância e valorizar o papel do militante. Militância que deve significar o assumir pelos comunistas o seu Partido. Militância que traduza e dinamize um aprofundamento da democracia interna e uma persistente procura de formas de trabalho orgânico e político, que incentivem uma participação activa dos membros do Partido. Militância que, a par do reforço do quadro de funcionários com tarefas de organização, alargue o assumir de responsabilidades por camaradas não funcionários, libertando assim forças para tarefas mais exigentes, designadamente em disponibilidade e mobilidade dos quadros. Militância que deve significar o crescimento do núcleo activo do Partido, que neste processo deve também ser mais rigorosamente conhecido e quantificado em balanço de organização;
  • um grande e empenhado movimento de revitalização das estruturas de base do Partido. O Comité Central decide lançar um movimento geral e planificado de Assembleias das organizações de base. Movimento que deve partir de uma identificação rigorosa em cada organização regional dessas estruturas - as células por local de trabalho, por local de residência ou por sector socioprofissional. Uma identificação que, tendo em conta a divisão administrativa do País, não a siga mecanicamente, antes seja capaz de concentrar massa militante, quadros e meios adequados aos objectivos e funcionamento de uma organização de base. Assembleias que, procurando ser amplamente participadas devem realizar-se sem formalismos, constituindo espaços abertos de reflexão, debate e tomada de decisões. Assembleias que, quando electivas, devem realizar a eleição dos organismos dirigentes que, por sua vez e nos termos estatutários, «devem distribuir tarefas entre os seus membros». Nessa responsabilização individual, deve incluir-se a possibilidade da escolha/eleição, no âmbito do organismo, do ou da camarada que vai coordenar e dinamizar o funcionamento do colectivo, no quadro dos princípios estatutários. Assembleias para determinar respostas, para definir e dinamizar iniciativas, para reforçar a organização dos comunistas portugueses, para um reposicionamento crítico da célula como «alicerce e o elo fundamental da ligação do Partido com a classe operária, com os trabalhadores, com as massas populares», e «suporte essencial para promover, orientar e desenvolver a luta e a acção de massas».
No sentido de uma profunda revalorização e impulso ao funcionamento das organizações e organismos de base, o Comité Central manifesta a vantagem na participação e/ou integração da generalidade dos quadros do Partido nas organizações e organismos de base, procurando-se assim um mais completo e integral aproveitamento do enorme capital de experiência política e o simultâneo enriquecimento de muitos quadros.

4. No movimento geral de assembleias e reuniões de militantes e de organismos, são pontos importantes, o questionamento sobre o estado e modo da relação política das organizações e dos comunistas com as populações, com os colegas de trabalho e vizinhos; sobre a sua intervenção nas colectividades, nas associações culturais ou desportivas; sobre o papel e trabalho dos comunistas no exercício do poder local ou em associações de classe; sobre a batalha das ideias, de informação e esclarecimento que travamos (ou não travamos) nesta empresa, nesta rua, neste bairro, nesta freguesia ou cidade, pelos objectivos programáticos ou mais imediatos do PCP, contra o descrédito e desvirtuamento do regime democrático e da acção política, e o abstencionismo cívico e eleitoral. O questionamento sobre a forma de estar e de agir dos comunistas nas lutas dos trabalhadores e das populações, nos movimentos sociais e cívicos.

Em particular, uma grande atenção deve ser dada à reflexão e à tomada de medidas para o aproveitamento do enorme potencial de intervenção política e de reforço do Partido, que constituem os milhares de cidadãos e cidadãs que, como independentes, participaram nas listas CDU nas recentes eleições autárquicas, e com os quais devem ser encontradas formas mais ou menos regulares de contacto para a coordenação e desenvolvimento de trabalho nas autarquias e na defesa dos interesses populares.

5. Ainda no decurso do primeiro semestre deste ano, o Comité Central procederá a um balanço das medidas adoptadas e do debate realizado no Partido e das principais contribuições que tenham sido obtidas para o prosseguimento e aprofundamento de direcções de trabalho cruciais para o reforço da influência social, política e eleitoral do PCP e do seu papel na democracia portuguesa.
II

Uma orientação estratégica clara e afirmada:
um projecto de esquerda e de poder,
para um novo rumo democrático
1. Apesar da derrota dos partidos da direita nas legislativas de Outubro de 1995, e do facto de socialistas e comunistas terem passado a dispor da maioria dos lugares na Assembleia da República, as possibilidades que então podiam ter-se aberto para a concretização de uma viragem democrática, no sentido da esquerda, da situação nacional, não tiveram qualquer expressão devido às opções tomadas pelo PS.

O Governo PS, tendo embora introduzido alterações de estilo e mudanças de orientação em alguns aspectos sectoriais, manteve, inalteradas as principais políticas que vinham sendo conduzidas pelos governos anteriores. Prosseguiu o ataque a direitos dos trabalhadores e uma política de repartição da riqueza desfavorável aos trabalhadores e às camadas da população mais desfavorecidas. Acelerou o processo das privatizações, inclusive de empresas públicas fornecedoras de serviços e bens essenciais (EDP, PT, etc.). Promoveu novas medidas de descaracterização do regime democrático, designadamente através da revisão constitucional. Manteve a política externa e uma política de integração europeia caracterizada pela subordinação dos interesses nacionais aos das principais potências e aos dogmas neoliberais do grande capital financeiro. Estas orientações foram facilitadas pelo facto de o PS ter tido uma votação que o levou muito próximo da maioria absoluta.

A estratégia das forças de direita, protagonizada na primeira linha pelo PSD, evidencia-se com crescente nitidez. Por um lado, essas forças acompanham as opções fundamentais do Governo do PS, que correspondem, em grande medida, às suas. Mas, por outro lado, movem-se de forma activa com o objectivo de reagrupamento de um bloco à direita e de capitalização por parte da direita do descontentamento social e da frustração que alastram em amplos sectores sociais, com correspondência política no eleitorado do centro e da esquerda.

2. O Comité Central adverte ser previsível que, com a aproximação das eleições legislativas, o PS e o PSD procurarão cada vez mais aprisionar os eleitores na falsa opção entre manter o PS no governo, com uma política de direita, e o regresso da direita ao governo.

E desde já sublinha que, neste quadro, a acção, a intervenção e a iniciativa política do PCP devem ter como grande eixo unificador o objectivo de favorecer que se amplie a compreensão e consciência de que é possível uma alternativa progressista e de esquerda à alternância entre PS e PSD na realização de uma política no essencial semelhante, e que será o reforço da influência eleitoral do PCP (e uma diferente correlação de forças entre o PCP e o PS) que melhor inviabilizará tanto uma reabilitação eleitoral da direita como a continuação da actual política do PS, e que mais favorecerá uma verdadeira alternativa democrática e uma nova política.

3. É neste quadro e circunstâncias que as eleições legislativas e europeias, previstas para o próximo ano, tendem a exercer uma influência cada vez mais determinante na vida nacional. Marcam a fase de intensificação da vida política e social em que o País já entrou. Podem comportar especiais dificuldades ligadas ao avanço de linhas de descaracterização do regime democrático constitucional que o PS e o PSD estão procurando impor. Apresentam acrescidas exigências e renovadas possibilidades de intervenção aos comunistas e a todos os restantes sectores e sensibilidades de esquerda. E, associadas à luta popular de massas, recolocam, não só a necessidade mas a possibilidade e a importância da criação de condições para uma inflexão, no sentido da esquerda, do rumo político nacional.

O Comité Central reafirma que o PCP está fortemente empenhado em fortalecer, ampliar e enriquecer a sua intervenção, enquanto partido dotado de um projecto político transformador e portador de uma contribuição essencial para uma alternativa de esquerda, mas, ao mesmo tempo recusa deixar-se aprisionar e dissolver numa «vida política» crescentemente marcada pelo espalhafato, pela superficialidade, pelo artificialismo e pelo efémero, antes sustentando que a sua escolha é, de há muito, a da intervenção e acção políticas, próximas dos problemas e preocupações dos cidadãos, mobilizadora das suas iniciativas e lutas, agregadora das aspirações a nova política.

Particulares responsabilidades e exigências se colocam, por isso, aos comunistas e ao seu Partido, nas diversas frentes de intervenção e de luta.

Sem prejuízo da ulterior fixação de orientações especificamente destinadas à participação nos actos eleitorais do próximo ano, o Comité Central aponta, desde já, sem prejuízo de outros temas, o necessário aprofundamento e desenvolvimento de cinco grandes linhas para a sua intervenção política:

1ª - Contribuir para a afirmação de uma esquerda e de um projecto que suporte a perspectiva, a possibilidade e a luta pela concretização de um novo rumo democrático para Portugal. Esta contribuição, no quadro da intensificação da luta social e de uma forte afirmação do PCP, através da sua voz e das suas propostas, envolve igualmente uma forte disponibilidade de abertura e de empenho do PCP, para participar num alargado e genuíno processo de diálogo e de debate, à esquerda, susceptível de estabelecer pontes e de construir convergências que contribuam para viabilizar um projecto de poder. Um processo respeitador da pluralidade das expressões e das diferenças, que reuna individualidades, sectores e sensibilidades políticas que se situam criticamente em relação às orientações neoliberais, mobilizador e envolvente de movimentos e forças sociais e culturais diversas, com particular atenção para a participação da juventude e das mulheres. E permanentemente aberto à participação directa dos cidadãos.

2ª - Prosseguir a afirmação do PCP como oposição de esquerda, combativa, consequente e responsável. A contraposição de propostas de política alternativa, de esquerda, às orientações de inspiração neoliberal adoptadas pelo Governo, constitui por isso um contributo essencial do PCP - que importa potenciar ainda mais - para todo o debate político e das ideias. Fundamental para a abertura de alternativas políticas reais, que sustentem os interesses dos trabalhadores e de sectores sociais muito amplos, e que promovam os interesses nacionais, no actual quadro comunitário e global em que necessitam de ser activamente afirmados. Neste contexto, o PCP continuará a confrontar e desafiar o PS relativamente a importantes promessas não cumpridas, constantes do «Contrato de Legislatura» e do «Programa Eleitoral».

3ª - Defender activamente uma política de desenvolvimento e de emprego, com direitos, com uma justa repartição do rendimento nacional e a defesa e preservação do ambiente. Uma política que defenda e valorize a produção nacional e estimule a dinamização do mercado interno. O PCP empenhar-se-á em lutar pela melhoria dos salários, reformas e outras prestações sociais, pelas 40 horas e combaterá os privilégios à finança e às actividades especulativas, e defenderá uma nova política fiscal, prosseguirá o seu combate ao crescente domínio do poder económico sobre o poder político e à privatização de empresas e serviços públicos, e intensificará a luta por um sector público forte e renovado e por serviços públicos de qualidade.

4ª - Sustentar a realização de reformas democráticas nas áreas da educação, saúde e segurança social, combatendo a desresponsabilização do Estado nestas áreas e o crescente negocismo privatizador e lutando pela melhoria de funções públicas e de prestações sociais essenciais para o nível e qualidade de vida e o futuro dos portugueses.

5ª - Lutar por um novo rumo para a construção europeia, por uma Europa de paz, cooperação e «coesão económica e social», por uma Europa de nações soberanas e iguais. O PCP juntará os seus esforços em convergência com outros partidos comunistas, forças de esquerda e progressistas a nível da União Europeia, na luta pelo emprego, pela redução do horário de trabalho, pelo nivelamento por cima das conquistas sociais e na luta contra o tráfico de droga e da toxicodependência.
III

Uma confiante intervenção política e de massas
junto dos trabalhadores e das populações
1. Na sequência dos resultados das eleições autárquicas, foi desencadeada uma intensa e articulada ofensiva que, no plano político e ideológico, tem procurado deturpar, caricaturar e denegrir aspectos essenciais da orientação da intervenção e do posicionamento político do PCP.

Essa ofensiva tem procurado, nomeadamente, apresentar o PCP como um partido que faria do PS o seu «inimigo principal» e adoptaria, perante o partido do Governo, uma atitude de intransigência e de recusa ao diálogo, que praticaria uma oposição cega e sistemática em relação à política do Governo e que, supostamente desprovido de um projecto e de propostas construtivas, estaria meramente acantonado na defesa de interesses sociais muito limitados.

O Comité Central salienta que tais acusações são frontalmente desmentidas pela orientação e acção do PCP, destinam-se a promover uma flagrante inversão de responsabilidades que proteja e absolva o PS, e representam novas expressões da fracassada ambição de arrastar o PCP para a cumplicidade com uma política cujas opções e eixos fundamentais sempre combateu.

O Comité Central considera oportuno recordar que os sucessivos entendimentos com a direita (ora com o PP, ora com o PSD, ora com ambos), que têm viabilizado as opções políticas fundamentais do Governo PS, longe de resultarem de qualquer estado de necessidade face a uma pretensa intransigência ou rigidez do PCP, antes resultam de uma escolha estratégica há muito feita pela direcção do PS, em estrita correspondência com o real conteúdo da sua política.

O Comité Central considera oportuno recordar que, sem prejuízo de uma firme demarcação face à política global do PS (essencial não apenas do ponto de vista do respeito pelos compromissos eleitorais do PCP, mas também para frustrar uma provável manobra da direita no sentido de vir a responsabilizar «a esquerda» e, portanto, também o PCP, pelo fracasso do Governo PS), o PCP nunca hesitou em se associar e concorrer, muitas vezes com os votos dos seus deputados, para a aprovação de medidas pontualmente positivas propostas pelo Governo ou pelo Grupo Parlamentar do PS, como foi o caso recente do Projecto de Lei sobre a IVG.

O Comité Central considera oportuno recordar que, como foi sublinhado no XV Congresso do PCP, e é sublinhado pelos factos, o que melhor define a atitude do PCP na sociedade portuguesa é, aos mais variados níveis de intervenção, o seu profundo empenho construtivo na solução dos problemas do povo e do País, a incomparável generosidade e dedicação que coloca ao serviço dos interesses populares, o seu rico património de luta e reflexão sobre as grandes questões e problemas da sociedade portuguesa, a constante contribuição dos seus militantes para o fortalecimento das organizações sociais, a obra valiosa que há vinte e dois anos realiza no poder local, a sua qualificada intervenção no Parlamento Europeu e na Assembleia da República, bastando lembrar a este respeito que, em sucessivas legislaturas, é quase sempre o PCP quem, com um relativamente diminuto número de deputados, apresenta um maior número de iniciativas legislativas, visando dar resposta a sentidos anseios e preocupações dos portugueses.

2. A construção de uma alternativa é reconhecidamente um processo exigente e complexo. Exigirá uma sensível alteração da actual correlação de forças sociais e políticas.

No abrir de caminhos para a alternativa continuam a pesar como factores incontornáveis, a força e amplitude dos movimentos e lutas sociais e o acerto e intensidade da intervenção política do PCP, na resposta aos problemas actuais da sociedade portuguesa, à política do Governo, aos posicionamentos dos restantes partidos.
É nesse sentido que o Comité Central apela à intensificação dos movimentos e lutas dos trabalhadores e das massas populares, em torno de problemas que quotidianamente os afectam, na exigência de uma nova política, como factor determinante para resistir à política de direita, alcançar a satisfação das reivindicações e abrir caminho a uma alternativa. O movimento sindical unitário, as comissões de trabalhadores, as associações de agricultores, de intelectuais, de estudantes, as colectividades e outras estruturas associativas e organizações sociais desempenham, neste processo, um papel fundamental.

Simultaneamente, o Comité Central considera da maior importância proceder a um aprofundado exame da situação social, da intervenção nas presentes circunstâncias dos diversos movimentos sociais e dos problemas das organizações que os suportam, das perspectivas que se abrem ao desenvolvimento das lutas de massas, e das orientações e da actividade dos comunistas que intervêm nesta esfera. Em conformidade, decide dedicar uma futura reunião a esses objectivos.

3. No contexto da actual situação política, e representando tarefas políticas de grande importância no ano em curso, o Comité Central destaca a necessidade da intensificação da luta por objectivos concretos e imediatos, e contra decisões e projectos particularmente gravosos anunciados pelo Governo.

Assim, é essencial o desenvolvimento da luta dos trabalhadores por aumentos salariais dignos, pelas 40 horas, em defesa da contratação colectiva, contra os despedimentos e a precarização das relações laborais, contra perigosas alterações da legislação de trabalho; dos estudantes e de docentes, contra a lei do financiamento do ensino superior público; dos professores, pais e estudantes, contra a imposição de uma lógica empresarial que põe em risco as escolas públicas do ensino básico e secundário e em defesa da sua direcção e gestão democráticas; das mulheres, contra discriminações e pela concretização da igualdade em todas as esferas da vida; dos reformados, pela melhoria das pensões, nomeadamente pela elevação significativa das mais degradadas; das populações, pela exigência de medidas efectivas de combate à toxicodependência, ao tráfico de droga e ao branqueamento de capitais; e sublinha a urgência de se ampliar a oposição popular às privatizações, designadamente de empresas prestadoras de serviços públicos essenciais, e aos escandalosos aumentos de preços que estão a induzir.

A curtíssimo prazo, será necessário travar uma árdua batalha contra os projectos do PS e do PSD de alterarem, em sentido antidemocrático, a legislação eleitoral, designadamente a respeitante às eleições legislativas, de modo a imporem a criação de círculos uninominais, cujo único real objectivo é o de pressionarem os eleitores no sentido da concentração de votos apenas no PS e no PSD, procurando diminuir a votação e a representação parlamentar do PCP.
O Comité Central, sublinhando a vantagem em que, vencendo as manobras dilatórias do PS, fique finalmente aprovada e entre em vigor a lei da criação das Regiões Administrativas no continente, considera, entretanto, indispensável que se alargue a consciência de que é por exclusiva responsabilidade do PS que, com alta probabilidade, poderá estar comprometida a concretização desta importante reforma democrática na presente legislatura. Com efeito, primeiro ao ligar a regionalização ao processo de revisão constitucional, depois ao ceder ao PSD na exigência de um referendo sobre uma reforma que está há 22 anos consagrada na Constituição, de seguida ao fazer depender o referendo da actualização dos cadernos eleitorais, por via da absurda e ilegítima exigência de participação de 50% dos eleitores no referendo sobre a regionalização - todos os comportamentos e atitudes essenciais do PS têm sido no sentido de complicar e inviabilizar, na prática, o processo de criação das regiões administrativas. É, assim, inteiramente legítimo reafirmar a prevenção há muito feita pelo PCP de que o núcleo mais responsável da direcção do PS há muito tempo que desistiu desta reforma, e de que, nesta matéria, todos os esforços do PS estão concentrados apenas em encontrar um bode expiatório, ou em responsabilizar outros, pelo incumprimento desta sua destacada promessa eleitoral.

Em matéria de integração europeia, o Comité Central declara ser completamente inaceitável pelo nosso País o conteúdo da chamada Agenda 2000, que visa estabelecer o enquadramento político-financeiro do alargamento aos países do Leste da Europa. Pelos limites ao crescimento da despesa comunitária que estabelece, pela proposta de reforma dos fundos estruturais que contém, incluindo a exclusão da Região de Lisboa e Vale do Tejo do objectivo 1, e pelas reformas da Política Agrícola Comum (PAC) e da Política Comum das Pescas que propõe, a Agenda 2000 significará, segundo estudos de insuspeitas instituições, que Portugal será, com o alargamento, o mais prejudicado dos actuais membros da União Europeia.

O Comité Central chama a atenção para que, quanto à adesão de Portugal à moeda única, toda a estratégia do Governo se baseia na sua apresentação como um facto consumado, ideia que as anunciadas campanhas de propaganda, em preparação a nível nacional e comunitário, procurarão consolidar ainda mais fortemente, como forma de impedir o debate alargado das suas reais consequências e travar o avanço das reservas e da oposição que um tal passo já hoje suscita em largos sectores da opinião pública nacional.

É, entretanto, indispensável ampliar a denúncia e o desmascaramento do «referendo-fraude» que o PS e PSD anunciam sobre «matéria europeia» (ao proporem uma pergunta destituída de qualquer eficácia e desonestamente redigida para obter um «sim» esmagador), e prosseguir a exigência de um referendo em que o povo português se possa pronunciar sobre as questões mais relevantes que, de facto, estão em causa - designadamente a participação de Portugal na moeda única e a sua sujeição ao Pacto de Estabilidade.

O PCP considera, entretanto, completamente inaceitável qualquer ideia de realização de dois referendos na mesma data (designadamente sobre regionalização e matéria europeia), como pretendem o PS e o PSD - numa demonstração clara de que não estão interessados em garantir condições de clareza e seriedade ao exercício da soberania popular.

Como tarefa política especialmente urgente, o Comité Central salienta a importância de, com confiança, se desenvolver um vasto movimento de opinião democrática, no sentido de exigir a votação final da lei aprovada pela Assembleia da República em 4 de Fevereiro, despenalizando a interrupção voluntária da gravidez em certas condições, e denunciar a vergonhosa combinação feita entre a direcção do PS e o PSD para a realização de um futuro referendo sobre este tema, combinação cujo único resultado prático imediato seria o de paralisar a aprovação final da lei, defraudando as expectativas legitimamente criadas de um avanço positivo na solução de um grave problema que afecta as mulheres portuguesas, e desprestigiando, de forma ostensiva, a própria Assembleia da República.

Finalmente, condenando o seguidismo do Governo face aos EUA, o PCP prosseguirá a luta contra oenvolvimento de Portugal na escalada agressiva contra o Iraque, apelando ao desenvolvimento de um diversificado movimento de oposição e protesto.

4. O Comité Central procedeu a uma primeira abordagem das linhas gerais do plano de trabalho e calendário de iniciativas do Partido em 1998, as quais perspectivam uma intensa e diversificada intervenção do PCP.

Desse conjunto, o Comité Central chama a atenção, pela sua importância, para as múltiplas iniciativas de comemoração do 77º aniversário do Partido (com destaque para o comício a realizar no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, a 7 de Março), para as iniciativas sobre o significado dos 150 anos do Manifesto Comunista e para a já anunciada realização da Festa do «Avante!», a 4, 5 e 6 de Setembro.

O Comité Central sublinha a especial importância de as comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maioconstituírem uma forte afirmação dos ideais e valores progressistas e da luta pelos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo português.
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No ano em que se completam 150 anos sobre a publicação do Manifesto do Partido Comunista - documento marcante de uma nova perspectiva revolucionária de transformação social e de libertação humana e impulsionador de um grande movimento de ideias, de combates e de lutas da classe operária, dos trabalhadores e dos partidos comunistas que mudou o rumo da história da humanidade - o PCP, convicto da força, da grandeza e da vitalidade dos seus valores e ideais, aberto para a vida e para o futuro, empenhado em afirmar, enriquecer e projectar a sua identidade e o seu projecto de democracia e socialismo para Portugal, tudo fará para continuar a honrar, e cumprir ainda melhor, as suas responsabilidades nacionais e internacionalistas de grande força da liberdade, da democracia e do progresso social, aos serviço dos trabalhadores, do povo e do País.

22 de janeiro de 2013

Etiano Branco sobre a sua vida


A Minha História de Vida

A infância

Nasci “de passagem” em São Tomé e Príncipe. Fui levado pelos meus pais com seis meses de idade para Angola, onde, foi-me dito mais tarde, o meu pai se tornou um dos grandes especialistas na produção de café, tendo trabalhado, como “capataz”, em algumas das principais fazendas do Norte de Angola, mais precisamente na Província do Uíge, até se tornar proprietário da sua própria fazenda, a que deu o nome da minha avó paterna, Laura, situada algures entre Quitexe e Vila Nova de Caipemba.
Dos anos mais recuados da minha infância, guardo memórias dispersas de uma vida serena e feliz, entre brincadeiras nos capinzais e florestas, a subida às árvores para colher sumarentos frutos (mangas, goiabas…) e uma total ausência de medo face aos animais e animaizinhos que por ali partilhavam o espaço comigo e eventuais amigos. Também recordo algumas vivências ternurentas com a minha irmã, três anos mais velha do que eu (dado que a qualidade de menina não aconselhava muito a sua permanências naquelas terras inóspitas, o meu pai enviou-a alguns anos depois para a “metrópole”, para ser educada pela minha avó Laura, em Vila Nova de Foz-Côa; ela nunca perdoou tal facto ao meu pai, mas essa é outra história…).
Chegado o momento de começar a aprender as “letras”, fui remetido para Luanda, onde me inscreveram num colégio para fazer a pré-primária, tendo ficado instalado em casa de um casal amigo dos meus pais. Tinha então cinco anos e acho que me saí bem.
Entretanto, chegou o momento de o meu pai se decidir a avançar com a sua própria fazenda de café, o que fez em sociedade com um seu irmão e meu tio. Este meu tio ficou instalado em Vila Nova de Caipemba, onde também tinha uma loja, e tratava da parte “burocrática” da fazenda (o meu pai era o responsável pelo andamento das coisas no terreno). E foi para casa do meu tio que fui recambiado após terminar a pré-primária.
Caipemba era uma vila relativamente recente e apenas nesse ano estava a ser construída a escola primária. Mas já havia sido contratada uma professora, que começou por me dar aulas em privado até a escola ser inaugurada, uns meses depois.
A frequência da escola primária foi estimulante. Tive a vantagem de o meu tio ser um leitor compulsivo e ter muitos livros em casa, embora ele não se preocupasse muito em “orientar” as minhas leituras. Assim eu comecei muito cedo a ler tudo o que apanhava, desde a Bíblia até livros policiais, o que naturalmente fez com que me distinguisse com alguma facilidade na escola, onde fui sempre o melhor aluno, tendo terminado a 4ª classe e feito o exame de admissão ao Liceu com “brilhantismo”, como me recordo de a minha professora primária (de cujo nome, curiosamente, me esqueci) ter classificado o “feito”.
Entrei então para o Liceu e lá fui outra vez para Luanda, desta vez para casa de uns primos afastados da parte da minha mãe.
E foi quando o “meu” mundo se desmoronou.
Em 11 de Março de 1961, um movimento nacionalista denominado União dos Povos de Angola (UPA, que posteriormente alterou a designação para Frente Nacional para a Libertação de Angola – FNLA) desencadeou os massacres que estiveram na génese da guerra colonial.
Não me vou deter muito neste ponto porque os factos são conhecidos e porque, ainda hoje, é-me um tanto doloroso falar no assunto. Os meus pais e os seus empregados foram chacinados na fazenda. Acontece que eu estava de férias da Páscoa mas, ao contrário do que havia sucedido noutros anos, não fui passar as férias na fazenda e fiquei em casa do meu tio, em Caipemba. Só por isso sobrevivi, mas, ainda assim, vi demasiadas coisas que uma criança de 11 anos de idade não deveria ver, de todo. A vila esteve cercada pelos “terroristas” durante dois dias, até chegar uma força militar oriunda de Carmona (hoje Uíge) que repôs a “ordem” (igualmente com recurso a alguns massacres) e tratou da retirada das mulheres e crianças, em camioneta, para o Negage, onde havia um aeroporto militar, e depois para Luanda, de avião (foi o meu baptismo de voo). O meu tio ficou e nunca mais o vi.
Em Luanda, fui acolhido num centro de refugiados. Posteriormente, a Cruz Vermelha Portuguesa interessou-se pelo meu “caso” e optou pelo meu internamento na Casa Pia de Lisboa (Colégio Pina Manique).
Assim, um belo dia de Janeiro de 1962, fui entregue a uma hospedeira de bordo no aeroporto de Luanda (onde estariam uns 30 graus centígrados de temperatura) e umas horas depois chegava a Lisboa (onde estariam para aí uns 5 graus centígrados). E eu com o meu “fatinho-da-comunhão”, sem forro. Tive tanto frio que até as unhas dos pés batiam palmas… Ainda hoje me recordo de uma sopa que me deram quando cheguei à delegação da Cruz Vermelha Portuguesa (em frente ao Jardim Zoológico). Mas não me recordo do sabor da sopa, e sim que era… quente!

A adolescência

Os primeiros tempos no Colégio Pina Manique foram terríveis. Além do frio a que não estava habituado (nascera em pleno Equador e vivera até aos 11 anos num dos territórios mais quentes e húmidos de África), não sendo propriamente um “menino rico”, poderia dizer-se que tivera até então uma existência confortável e, de certo modo, protegida. De repente, tudo era diferente, desde a comida aos hábitos e… capacidade de sobrevivência.
Ainda me recordo do ar espantado do preceptor quando, a meio da tarde do primeiro dia, lhe perguntei com o ar mais cândido: “A que horas é o lanche?”. Lanche? (eh eh eh).
Assim como me lembro de haver um “ritual” no refeitório a que levei algum tempo a adaptar-me: as mesas eram de seis alunos, sempre os mesmos durante um ano lectivo, se bem recordo; para que não houvesse confusões, em cada refeição um dos alunos era o primeiro a servir-se, da sopa, conduto e fruta - e ia rodando até dar a volta à mesa, sucessivamente; ora bem, nas primeiras refeições em que participei, como “bem educadinho” que era, quando me calhava ser o primeiro a escolher, escolhia a posta de peixe mais pequena ou a fruta com ar menos apetitoso (na convicção de que os outros fariam o mesmo quando fosse a vez deles); está-se mesmo a ver que rapidamente me apercebi de que ficava sempre com o pior bocado, fosse o primeiro ou o último a escolher. E, naturalmente, aprendi uma regra de sobrevivência…
Tive muita dificuldade em adaptar-me ao clima (invariavelmente ia parar à Enfermaria em Dezembro - como nasci a 23 de Dezembro, os aniversários eram sempre passados na cama, de tal maneira que acabei por ser de algum modo “adoptado” pela enfermeira, que me levava sempre umas guloseimas aniversariantes).
Mas lá acabei por adaptar-me e os anos passaram. Tirei o Curso Geral de Comércio, vertente esteno-dactilografia. Já nessa altura pensava que gostaria de ser jornalista, pelo que me parecia ser o único curso dos então disponíveis em Pina Manique que se adaptava de algum modo a essa pretensão (também havia Tipografia, mas a minha falta de jeito em trabalhos “manuais” desaconselhou-me essa via).
Fui um aluno mediano. Apenas me destacava em Português, que terminei com média de 17. Olhando à distância, julgo que poderia ter sido muito melhor aluno, mas faltavam-me estímulos. Recordo, por exemplo, um episódio: um dia o professor de Cálculo Comercial passou-me uma descompostura durante a aula, chamando-me preguiçoso e outras coisas mais; fiquei furioso e decidi dar-lhe a resposta; agarrei-me aos livros e nas semanas seguintes fiz exercícios e mais exercícios; no teste seguinte, o meu teste estava perfeito, tudo certo, era para 20; no dia da distribuição de resultados, o professor olhou para mim e disse que não acreditava que não tivesse copiado; e deu-me 10, por especial deferência... Claro que nunca mais me preocupei com aquela disciplina (ou, por outra, preocupei-me o suficiente para passar…).
Fora das aulas fui um razoável praticante de desporto. Joguei andebol nos torneios inter-escolas e futebol no Casa Pia Atlético Clube (apenas nos juvenis, porque entretanto surgiram outros interesses e deixei o futebol).
Um dos interesses era a leitura. Fui eu que desencadeei o embrião de uma biblioteca que, espero, tenha frutificado em Pina Manique. Aproveitando as aulas práticas de dactilografia, lembrei-me de escrever para todas as editoras a solicitar a doação de livros. Não esperava tão boa reacção. Chegaram caixotes e caixotes de livros.
Terminado o curso, dado que não tinha qualquer familiar em Lisboa (como já disse, a minha irmã estava em Vila Nova de Foz-Côa, com a minha avó paterna; também por ali estavam mais duas tias paternas e alguns primos, mas, sem querer ser demasiado cruel, diria que era gente mazinha, excepção feita à minha irmã, claro) fui para o Lar de Stº António, entretanto criado exactamente para apoiar o pessoal que saía de Pina Manique e não tinha para onde ir.
Concorri e entrei para o meu primeiro emprego, como escriturário, na então Federação Nacional dos Produtores de Trigo (posteriormente EPAC).
Comecei então a descobrir algumas das boas coisinhas da vida que tinham estado até então um bocado desavindas (o namoro, por exemplo). E comecei a desenvolver alguma consciência política. Lentamente, percebi que as circunstâncias do que me tinha acontecido em Angola eram bem mais complexas do que julgara. E desatei a ler. Muito. E a conviver. Foram tempos agradáveis.

A tropa

E chegou o momento de ingressar no Serviço Militar Obrigatório. Com a consciência política recém-adquirida, cheguei a ponderar a deserção. Por um lado, apesar do trauma que me fora infligido em Angola, ganhara consciência de quão disparatada era a Guerra Colonial; por outro lado, precisamente pelos acontecimentos que presenciara, não tinha muito bem a certeza de como reagiria se confrontado com a guerra propriamente dita (de arma na mão).
Ponderados os prós e os contras, decidi avançar e lá me apresentei ao serviço militar. Felizmente, por mero acaso, já que não tinha “cunhas”, fui parar a uma “especialidade”, digamos, anódina (para o caso): Administração Militar. Uma maravilha.
Após os trâmites habituais (recruta, especialidade), fui mobilizado, em rendição individual, para Moçambique, com destino ao Quartel-General, em Nampula.
Lá embarquei no navio Infante D. Henrique e, dado que se tratava de uma “rendição individual”, viajei como qualquer passageiro (sem as chatices da “tropa”). Foi magnífica a viagem (daria para um capítulo à parte).
Melhor ainda: chegado a Lourenço Marques (hoje Maputo), dado que um camarada estava já há dois meses à espera do substituto que nunca mais chegava (vim a saber mais tarde que o presumível substituto era filho de um general, que “bloqueara” a sua ida para Moçambique), fui sumariamente “requisitado” para ficar no Batalhão de Intendência de Lourenço Marques, onde passei dois simpáticos anos de férias sem dar um tiro numa guerra que não me agradava de todo. Nada mau.

E depois…

Quando se aproximava o final da minha “comissão de serviço” em Moçambique, comecei a matutar: “O que raio vou fazer para a Metrópole? Não tenho lá nada de apelativo (a não ser a minha irmã, mas, enfim, lá seguirá o seu caminho, e uma namorada que entretanto seguira outros caminhos – tal como eu, aliás)”.
E foi então que ponderei num facto: havia duas tias (irmãs da minha mãe) que tinham ficado em Angola (também eram naturais de São Tomé e Príncipe e, dado serem mais novas, foram “chamadas” pela minha mãe para Angola, onde construíram a sua vivência). Pensei então que se calhar não era má ideia regressar a Angola, pelo menos para ver como paravam as coisas. E assim foi: fiz um requerimento ao Chefe do Estado-Maior e, em vez de vir “passar à disponibilidade” na Metrópole, fui de Moçambique para Angola e disse adeus à tropa no Quartel do Grafanil, em Viana (arredores de Luanda).
Uma das minhas tias residia então em Salazar (hoje N’Dalatando, capital da província do Kuanza Norte) e foi para aí que me dirigi.
Estávamos no ano de 1973 e ali me fixei, tornando-me trabalhador bancário (Banco Comercial de Angola).
E deu-se o 25 de Abril de 1974.
Tempos conturbados
O 25 de Abril apanhou-me um bocadinho “desprevenido”. Apesar de razoavelmente politizado, talvez porque ao tempo não partidariamente empenhado, não entrevi o acontecimento. Mas aconteceu.
E as coisas complicaram-se. Salazar (hoje N’Dalatando) viveu o chamado “período de transição” como muitas outras localidades angolanas. Foi palco de dois violentos confrontos, em períodos distintos, em que, no primeiro, a FNLA saiu “vitoriosa”, remetendo o MPLA para “o mato” (ou longínqua periferia da cidade) e, no segundo e definitivo, o MPLA “varreu” a FNLA do terreno (a UNITA, por ali, limitava-se a fazer figura de corpo presente).
Vivi, mais uma vez, momentos inolvidáveis. Mas também essas são outras histórias.
Chegou-se a uma situação em que era completamente impossível a cidade continuar a funcionar como espaço convivial. E uma coluna de carros civis, enquadrada por viaturas militares portuguesas (da Metrópole), partiu para Luanda com toda a população (branca, mestiça) de Salazar (hoje N’Dalatando).
E assim voltei mais uma vez a Luanda. Onde fiquei durante alguns meses. 
Os meus tios e primos vieram para a Metrópole na “ponte aérea dos retornados”, mas eu decidi ficar para ver como evoluía a situação.
Fui ficando, sempre como funcionário do Banco Comercial de Angola, vivendo aqueles momentos exaltantes de descoberta da “democracia”, até que uma bela noite, numa tertúlia de café, em plena discussão sobre as opções e virtualidades políticas, um distinto fulano interrompeu o meu raciocínio dizendo: “Meu caro, não admito que um tipo mais ‘claro’ do que eu me levante a voz!”. Ele era negro e eu sou mestiço (ou mulato).
No dia seguinte, dei o meu carro ao marido da outra minha tia (que foi a única da família que ficou, ainda por mais algum tempo, em Angola), fui para o aeroporto de Luanda, e vim para Lisboa.
Aqui chegado (a Lisboa), reencontrei a minha antiga namorada (que entretanto tivera uma filha e já se divorciara do marido), que me disse com um ar muito sério: “Nunca te perdoarei que te tenhas vindo embora…”. Ela acreditava, muito sinceramente, que o povo angolano, todo ele, precisava da minha ajuda para ser feliz por todo o tempo. Coisas dos tempos mais ou menos revolucionários...

E a vida continua…

Mas quando cheguei, digamos, estava com uma mão à frente e outra atrás. Fui, naturalmente, refugiar-me em casa da minha irmã (aquela mesma que tinha sido “despachada” pelo meu pai para Vila Nova de Foz-Côa e que, entretanto, tinha dado asas à sua vida e se fixara na cidade do Porto, onde se casara e construíra a sua prole, ao tempo apenas uma filha, posteriormente mais dois rapazes).
Por ali deambulei, com um bocado de frio, e fui assistindo à “consolidação” da democracia portuguesa.
Arranjei um emprego, como funcionário administrativo, no Hospital Joaquim Urbano.
Mas se o clima de Lisboa, para quem nasceu em São Tomé e Príncipe, é um pouco agreste, o do Porto, então, deixem-me que vos diga: houve um ano em que, sem exagero, vivi literalmente, durante dois meses seguidinhos, sem interrupção, debaixo da chamada “chuva-molha-tolos” (ou “chuva-molha-otário”, na versão brasileira).
Cansei-me e voltei para Lisboa.
Claro que entretanto (e estas coisas nunca são inocentes), havia uma miúda pelo meio. A minha primeira mulher, a Lena, foi uma coisa boa que me aconteceu. Morreu, vinte anos depois, de cancro do estômago, e foi pena.
Chegado novamente a Lisboa, o meu amigo Orlando César, filho de Orlando Gonçalves (um homem com H grande), deu-me algum apoio e estive uns tempos a trabalhar na tipografia do “Notícias da Amadora”, jornal em que entretanto começara a colaborar também como jornalista.
Juntei entretanto “os trapinhos” com a Lena e, dado que havia sido bancário em Angola, “aproveitei” a hipótese de transferência de quadros e tornei-me bancário na Metrópole. Fui, durante alguns anos, funcionário do então Crédito Predial Português (embora, a bem da verdade, em grande parte do tempo em funções de “defesa dos interesses dos trabalhadores”, designadamente na Comissão de Trabalhadores da instituição).
Mas a banca não era, decididamente, a minha vocação. E ingressei no jornalismo. Primeiro no extinto jornal “O Diário”, conotado partidariamente mas que, ao tempo, exerceu um jornalismo de excelência (ao nível formal e de conteúdo). Passei depois pelo Diário Económico, semanário Expresso, revista Valor e canal de televisão SIC. Foram muitos anos de experiências inolvidáveis.
Entretanto, alguns anos após a morte da minha primeira mulher, “juntei os trapinhos” com a segunda, Ana, com quem actualmente resmungo ternurentamente ao final da noite. Não tive filhos, o que de algum modo lamento, embora, olhando para 11 de Março de 1961, me vá questionando: será que teria valido a pena?
De qualquer modo, posso sempre dizer (citando uma frase muito em voga) que vivi “acima das minhas possibilidades”.

8 de janeiro de 2013

Esperando que Julião Sarmento tenha sentido de humor

Hoje o sapateiro
resolveu tocar rabecão



Tendo esta capa do grande artista plástico Julião Sarmento para a última revista do Expresso sido objecto de delicadas reticências numa página do Facebook, aí anunciei que até eu, que lido mal com o Paint e não tenho CorelDraw, mesmo no estilo minimalista,  era capaz de fazer melhor. Aqui fica pois a minha atrevida tentativa, com a complementar explicação para leigos de que as partes referentes ao Paint fazem mesmo parte do projecto de capa. Não sei se me entendem mas é uma tentativa de proceder digamos à "desconstrução" do trabalho dos gráficos exibindo os instrumentos a que recorrem.

21 de agosto de 2012

Manifesto em defesa do serviço público de televisão


A evolução da televisão ao longo das últimas décadas, com a multiplicação da oferta de canais, a passagem ao digital, a perigosa concentração em grandes  grupos de comunicação, com o risco de promiscuidade entre política, negócios e informação, não diminuiu a legitimidade do serviço público na Europa e do 
seu insubstituível contributo para a democratização da sociedade. Pelo 
contrário, na maioria dos países europeus, o serviço público reforçou a sua 
legitimidade: multiplicou a oferta, reforçou a exigência de uma programação 
mais qualificada e atenta à inovação do que a dos seus concorrentes 
comerciais; tornou mais clara a exigência de uma informação isenta e plural; 
as preocupações com a programação cultural ou relacionada com os gostos das 
minorias e com os interesses sociais de reduzida expressão; a salvaguarda de 
programas e canais de limitado interesse comercial, mas importantes para 
toda a sociedade; a certeza de o seu capital ser nacional num quadro 
empresarial cada vez mais preenchido por multinacionais e poderosos 
operadores de telecomunicações; e o seu papel decisivo na indústria 
audiovisual.

De tal forma assim é que em nenhum outro país europeu, exceto em Portugal, o 
governo se propôs enfraquecer o serviço público de televisão, privatizando 
um dos seus canais nacionais. A prova é que a privatização de um canal de 
televisão não figura nem nas exigências da Troika, nem na agenda da União 
Europeia. O serviço público continua a ser considerado, agora mais do que 
nunca no quadro da televisão digital, um eixo estratégico de afirmação da 
língua, da cultura e da identidade de cada Estado, um instrumento da coesão 
social de cada país, através de um operador a quem todos ­ poder e opinião 
pública - reconhecem um insubstituível papel regulador do mercado, garante 
do pluralismo e promotor da diversidade e da qualidade dos conteúdos 
audiovisuais. E a quem os cidadãos sentem que podem pedir contas.

A verdade é que continuam plenamente válidos os sucessivos documentos de 
diversas instâncias europeias, apoiados num consenso de todas as famílias 
políticas da direita à esquerda, que vêm reafirmando que «um amplo acesso do 
público a várias categorias de canais e serviços constitui uma pré-condição 
necessária para o cumprimento das obrigações específicas do serviço p
úblico».

Desta forma, os signatários, provenientes dos mais variados quadrantes 
políticos e ideológicos, exprimem a sua profunda discordância face à 
anunciada privatização de um dos canais da RTP, apelando ao governo e ao 
poder político para que, tal como aconteceu com a prometida privatização da 
agência Lusa, não concretizem essa decisão, cujos contornos têm 
inclusivamente provocado legítimas suspeições sobre a sua transparência.

Entendem também que esta espécie de bomba-relógio que paira sobre a RTP, 
acompanhada do anúncio do desmembramento dos seus meios de produção,
compromete o futuro da empresa e está a prejudicar não apenas a prestação do 
serviço público, como impede o que devia ser sua a prioridade mais urgente: 
uma profunda reflexão sobre a forma de garantir o imperativo constitucional 
de independência face ao poder político e ao poder económico e a reforma a 
empreender na oferta do serviço público no quadro digital, acompanhando os 
modelos dos outros países europeus.

O governo, aliás, tem revelado uma preocupante falta de clareza e de 
coerência nas medidas anunciadas, geralmente avulsas e erráticas, pautadas 
pelo improviso e pelo desconhecimento do que está em jogo. A verdade é que, 
até hoje, o governo já falou de «alienação» e de «privatização», sem que 
ninguém percebesse porquê nem para quê, e muito menos o que se pretende «
alienar» ou «privatizar», nem em que termos.

Além do mais, neste quadro, uma eventual privatização de um canal, sobretudo 
se conjugada com o anunciado fim da publicidade comercial na RTP, não 
representaria nenhuma diminuição dos custos do serviço público, que, de 
resto e ao contrário do que tem sido frequentemente propalado, são dos mais 
baixos da Europa.

Bem pelo contrário, sobretudo no atual contexto de grave crise económica e 
financeira, a presença de um novo operador comercial, certamente com uma 
programação adequada à sua necessidade de maximizar receitas publicitárias, 
teria dramáticas consequências na viabilidade dos restantes operadores do 
sector, bem como em todas as outras empresas de comunicação social e da 
indústria audiovisual, empobrecendo drasticamente a qualidade e a 
diversidade dos media portugueses.

Por outro lado, essa privatização envolveria o fim de muitos dos atuais 
programas da RTP, quer os programas que legitimamente procuram dirigir-se a 
todos os portugueses, quer alguns dos que se destinam aos públicos 
minoritários, que não encontram conteúdos idênticos na restante oferta 
televisiva por não ser essa a vocação dos operadores comerciais - e que, por 
isso, devem ser assegurados por um canal alternativo -, conferindo
legitimidade e um importante papel regulador ao operador público.

Por todas estas razões, os signatários apelam ao bom senso dos partidos do 
governo e da oposição para que travem uma medida que carece de clareza e de 
racionalidade e que não pode em caso nenhum ser enquadrada no plano de 
privatizações, até porque a sua dimensão financeira seria despicienda e 
totalmente desproporcionada relativamente aos efeitos brutais sobre a 
indústria dos média e a qualidade e a isenção da informação, da formação e 
do entretenimento a que os portugueses têm direito.

Signatários 222 | última actualização | Segunda-feira 20.Agosto.13h00

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Carlos Fino
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escritor

Carlos Porfírio
escritor

Carlos Reis
professor universitário

Carlos T
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Carlos Veiga Pereira
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produtor de cinema

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Rui Teives Henriques
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Rui Vieira Nery
(confirmar)


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Virgílio Castelo
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jornalista

Vítor Ramalho
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Vítor Ribeiro
jornalista

20 de agosto de 2012

O Concerto Promenade de sexta na Festa do Avante!

Texto de Manuel Jorge Veloso


Diversa e multifacetada que é, quanto às ofertas musicais que proporciona a quem a visita, a Festa do “Avante!” tem-se tornado desde há anos, nas noites de sexta-feira e a pretexto da abertura dos espetáculos no Palco 25 de Abril, um local de encontro dos amantes da música erudita e afinal de todos os visitantes que, não o sendo por hábito, nela acabam por descobrir os insondáveis prazeres da audição da Grande Música.

A iniciativa de promover estes concertos radicou sempre, aliás, numa perspectiva político-cultural mais geral que tão-só consiste, por parte da organização da Festa, em tornar as várias modalidades e expressões da cultura e do espetáculo abertas às grandes massas de público que todos os anos frequenta a Quinta da Atalaia, segundo princípios não elitistas e com resultados claramente positivos e transversais em termos de classe, género, idade, experiência e formação profissional ou académica.
Se recordarmos, mesmo genericamente, o que têm sido os conteúdos dessas grandes noites musicais, concluiremos que, pelo Palco 25 de Abril, têm passado peças sinfónicas ou de câmara; obras orquestrais e concertos para instrumentos solistas; aberturas, intermezzi e árias de ópera; música “pura” ou música “funcional”, ou seja, composta em função de outras artes performativas; e até música “programática”, tendo portanto como móbil a inspiração provocada por um determinado acontecimento histórico ou a passagem de uma dada efeméride com peso de referência.
É assim naturalíssimo que, por maioria de razões, tenha chegado à altura de escolhermos como mote e mesmo como título para o nosso concerto anual a “chancela” dos famosos Concertos Promenade, os velhos Proms, tal como ficaram conhecidos os concertos que anualmente a BBC, serviço público de rádio e televisão britânico, organiza predominantemente no Royal Albert Hall de Londres.
Chamados de Promenade porque evocando os eventos musicais realizados ao ar livre, desde meados do século XVIII, nos grandes recintos públicos e parques citadinos, estes Concertos tornaram-se um acontecimento maior da programação da BBC a partir de 1927 e, depois de uma interrupção provocada pelos primeiros anos da II Grande Guerra, novamente a partir de 1942, agora no interior de amplas salas de concerto mas ainda e sempre proporcionando ao público um ambiente muito descontraído, quantas vezes sublinhando este com a sua espontaneidade e intervenção colectiva certas passagens de peças famosas e de conhecimento geral.
Nada que não conheçamos já, de uma outra forma, da nossa própria Festa!
É esse mesmo espírito de fruição informal mas atenta, tão próprio da vasta plateia ao ar livre frontal ao Palco 25 de Abril, que de novo caracterizará o concerto de arranque da Festa, até porque as nossas escolhas foram desta vez dirigidas para um repertório bem conhecido e de grande êxito popular. (ver caixa)
De regresso à Festa, estará a Sinfonietta de Lisboa, dirigida por Vasco Pearce de Azevedo, estando também em plano de destaque três jovens e talentosos solistas portugueses: Sérgio Pacheco (trompete), Ana Cristina Fernandes Pereira (violino) e Inês Andrade (piano).

alinhamento do espectáculo




9 de agosto de 2012