30 de setembro de 2013
Os candidatos das CDE às "eleições" de Outubro de 1973
Fonte : «Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973- Um Dicionário», de Mário Matos e Lemos, edição da Assembleia da República
Lisboa
Alberto Arons de Carvalho
António Simões de Abreu
Carlos António de Carvalho
Dulcínio Caiano Pereira
Francisco Manuel da Costa Fernandes
Maria Helena Augusto das Neves Gorjão
Herberto de Castro Goulart da Silva
João Sequeira Branco
José Joaquim Gonçalves André
José Manuel Marques do Carmo Mendes Tengarrinha
Maria Luísa Rodrigues Amorim
Pedro Amadeu de Albuquerque Santos Coelho
Vítor Manuel Caetano Dias
José Maria Roque Lino (não foi apresentado tendo sido substituído pelo suplente José António Tavares da Cruz [por mim, tenho a ideia de quem entrou como efectivo foi Sottomayor Cardia])
Suplentes:
Francisco José Cruz Pereira de Moura
Luís Filipe Lindley Cintra
António Fernandes Martins Coelho
Mário Augusto Sottomayor Leal Cardia
Francisco Manuel Marcelo Curto
Urbano Tavares Rodrigues
Gilberto Lindim Ramos
Francisco de Almeida Salgado Zenha
Fernando Abranches Ferrão
Porto:
António Macedo Varela
Jerónimo de Sousa Peixoto de Almeida
Berta Monteiro
Joaquim Augusto Nunes de Pina Moura
César da Silva Príncipe
Cassiano Pena de Abreu Lima
Fernando Celso da Silva Lemos Ferreira
Horácio António Simões da Costa Guimarães
António da Silva Mota
Jaime Vilhena de Andrade, não aceitou
Rui Manuel Polónio Sampaio, não aceitou
José Luís Nogueira, não foi admitido, tendo sido os três últimos substituidos por
Manuel Domingos de Sousa Pereira
José Augusto Nozes Pires
Célio Ezequiel de Albuquerque Melo da Costa
Suplentes:
Arnaldo Abreu Pinheiro Torres Araújo
Joaquim da Silva Rocha Felgueiras
Vírginia de Faria Moura
Olivia Ferreira
Virgilio Moreira
António Candido Miranda Nacedo
Armando Fernandes de Morais e Castro
Óscar Luso de Freitas Lopes
Vítor Óscar de Magalhães Silva Passos
Coimbra
Jorge Freitas Seabra
Maria Regina Dias Cavalheiro
Flávio Beleza Laranjeira
Alfredo Misarela Loureiro
CarlosVictor Baptista da Costa
Suplentes:
António Carlos Ribeiro Campos
António Romeu de Azevedo Cunha Reis
Castelo Branco
Carlos Alberto de Sousa Vale
José António Gabriel Pinho
Manuel João Vieira
António Teles André (desistiu da candidatura e foi substituído por
Carlos Alberto Ambrósio da Silva Ferreira
Aveiro
Amaral Simões dos Reis Pedreira
Álvaro de Seiça Neves
António Manuel Neto Brandão
José Oliveira e Silva
Rufino Jorge Rodrigues da Cunha
Manuel Augusto Domingues Dias de Andrade
Mário Bastos Rodrigues
Leiria
Carlos Alberto Freire Mota
José Henriques Vareda
Maria Odete Oliveira Santos
Manuel de Sousa Baridó
Antonio José Guarda Ribeiro
Custódio Pereira Maldonado Freitas
suplente:
Amílcar Pinho
Santarém
Álvaro Favas Brasileiro
Arnaldo Gonçalves Santos
Humberto Pereira Dinis Lops
João Luís Madeira Lopes
José Alves Pereira
José Manuel Bento Sampaio
suplentes:
<
José Faustino Rodrigues Pinhão
José Fidalgo Marques Pereira
Franklin Soares de Matos Torres
Évora
Ana Maria de Sousa Faro e Alves
António Barreto Areosa Feio
Fernando Iglésias dos Santos
Manuel João Passão
suplentes:
Mário Ventura Henriques
Joaquim Inácio Calhau Piteira Campos
Binadade Manuel Velez
Setúbal
Adilo Oliveira Costa
Artur Neves de Almeida
Ercília Carreira Pimenta Talhadas
João Aurélio Cruz dos Santos
Herculano Rodrigues Pires
Marcos Manuel Rolo Antunes (a candidatura não foi aceite tendo sido substituido pelo suplente
Alfredo Rodrigues de Matos
suplentes:
António Dias
Apolónia Maria Alberto Pereira
José Neves Ramalho
Viana do Castelo - a lista não foi apresentada
Romeu de Sousa
João Abel Cerqueira
Manuel José Cruz Soares
António Victor da Silva Barros
suplente:
João Armaldo Rodrigues da Fonseca Maia
Ponta Delgada - não foi admitida
António Eduardo Borges Coutinho
Manuel Barbosa
Eduardo José Azeredo Pontes
suplentes:
Maria de Medeiros Marques Pinto
Olga Sousa Lima
Maraia da Graça Macedo Forjaz de Sampaio
8 de junho de 2013
21 de maio de 2013
Sete notas soltas sobre
(Intervenção de Vítor Dias, em 17.5.2013
nas III Jornadas de Ciência Política do ISCTE)
nas III Jornadas de Ciência Política do ISCTE)
Boa tarde a todos, queria naturalmente começar
por agradecer aos estudantes de Ciência Política do ISCTE e ao
Prof. André Freire a patente generosidade de me terem incluído num
painel de oradores tão qualificado numa iniciativa que infelizmente
não pude acompanhar nas sessões anteriores mas cujo interesse e
mérito, me parecem evidentes.
Entretanto, quero assumir que aqui direi algumas coisas que
certamente vos parecerão esquemáticas, pouco articuladas ou mesmo
dispersas ou caóticas mas isso, sem menosprezar as minhas limitações
culturais, é uma consequência de o Rossio que viaja na minha cabeça
não caber na Betesga do apesar de tudo muito razoável tempo de intervenção.
As assumidamente descosidas observações que decidi
aqui trazer-vos obedecem à ideia que tenho de que se é certo que os
protagonistas ou intervenientes políticos têm a estrita obrigação
de acompanharem na máxima medida possível as reflexões que
sociólogos e politólogos vão avançando sobre questões cruciais
do nosso tempo, também me parece muitas vezes vantajoso que o mundo
académico se aproxime de uma forma mais directa, sensível e
informada sobre o que são a vivência, as condicionantes e as reais
características da acção dos partidos e da acção política em
geral, sob pena de se gerarem reciprocas e indesejáveis
incomunicabilidades e incompreensões.
Desenhado este já longo preâmbulo e feitas as
ressalvas que considerava necessárias passaria então a um conjunto
de observações fragmentadas à volta do tema
deste painel.
A primeira tem de
ser obrigatoriamente para vos lembrar que pertenço a uma corrente
politica e a um historicamente longo de 92 anos património de ideias
e de intervenção política que jamais definiu ou aceitou que a sua
matriz identitária e a sua perspectiva e horizonte de acção e
intervenção fossem os de exercer exclusivamente funções de
representação política antes sempre dedicou, antes do 25 de Abril
e depois, a imensa maioria dos seus esforços ao seu papel de
dinamização, estimulo à organização e apoio a uma larga e activa
intervenção e luta dos cidadãos ( e principalmente de
determinadas classes ou sectores sociais) na vida nacional.
A segunda,
decorrente obviamente da primeira, é que neste quadro e mesmo que
possa ter reservas sobre aspectos da orientação de alguns deles,
vejo com grande apreço as iniciativas de agregação e mobilização
de cidadãos em torno de causas especificas ou objectivos
sócio-políticos mais globais (e que não são promovidas nem por
sindicatos ou partidos) e as considero como complementares de outras
formas de intervenção digamos mais clássicas e as olho como
poderosos afluentes e expressões de um necessário alargamento da
luta.
Entretanto, certamente não precisarei de dizer que são as formas organizadas e estáveis de representação e defesa de interesses que me parecem melhor garantir condições de maior eficácia e serem factores mais profundos de consciencialização social e politica e de aprendizagem colectiva.
Neste ponto, deixo propositadamente de parte por razões
de economia de tempo, as controvertidas questões sobre saber se tudo
o que mexe e positivamente se movimenta são «movimentos sociais»,
se «os novos movimentos sociais» são assim tão novos como isso ou
se, tirando as novas tecnologias de comunicação, já vem dos anos
70 do século passado, ou mesmo se não há uma certa confusão entre
reais movimentos sociais e grupos numericamente limitados de pressão
ou expressão de correntes de opinião sobre temas diversificados no
espaço público.
Dito isto, seria esconder de vós algo de essencial se
não dissesse que tenho combatido, combato e continuarei a combater
os que, empenhados em valorizar os movimentos ou movimentações
ditos «inorgânicos» (atenção que alguma «orgânica» têm de
ter) parecem obcecados e dominados pelo objectivo de fazerem tiro ao
alvo sobre os partidos, sobre os sindicatos ou mesmo sobre o sistema
político.
E, neste domínio, quero dizer-vos com franqueza total
que considero por demais significativo e relevante que os promotores
das mais poderosas manifestações dos últimos tempos – falo do
movimento QUE SE LIXE A TROIKA – já terem repetidamente
demonstrado que não são passíveis daquela minha anterior reserva e
crítica.
A terceira
observação é para vos confessar que, mesmo que aqui me refira
várias vezes genericamente «aos partidos», há mais de 30 anos que
combato (sofrendo persistentes derrotas) as quanto a mim nada
inocentes generalizações sobre os partidos e que sobretudo os
estudos de ciência política não podem passar ao lado da evidência
de que, independentemente de
juízos de valor,
os partidos políticos portugueses tem diferentes histórias,
diferentes identidades, diferentes concepções de funcionamento e de
acção, diferentes projectos políticos e que os seus militantes
também são em larga medida influenciados ou formados através de
diversas culturas políticas, sem que isto signifique que pretenda
reclamar para o meu lado qualquer santidade ou perfeição, antes
significando apenas que estou disponível para confrontos ou comparações feitos no
concreto.
Neste
âmbito, quero confessar-vos que se há coisa que me tira do sério é
o tique, pavorosamente dominante nos media, que consiste em, se se
fala de partidos, pensar-se apenas nos dirigentes, nas estruturas e
no chamado «aparelho» e , se se fala de movimentos, pensar-se
apenas nos «cidadãos». Como se os partidos fossem compostos por
robôs ou extraterrestres e não como são (ou não devessem ser) a
organização de cidadãos livres em torno de um projecto político e
como se os «movimentos de cidadãos» não tivessem dirigentes.
Este tipo de tiques esquece aliás
que, a seguir aos sindicatos, os partidos políticos são seguramente
as organizações que maior número de cidadãos agregam e associam.
De idêntico modo, me parecem
muito precipitadas as tendências para considerar que os «movimentos
de cidadãos» são um esplendor de democracia interna e que os
partidos, bem ao contrário, seriam o território por excelência da
falta de democracia.
A este respeito, e sem que isto
deva ser considerado um defeito desses movimentos, mantenho a minha
ideia muita antiga de que, quanto mais um movimento é informal e
«inorgânico» mais fácil e natural é a concentração dos poderes
de decisão em poucas pessoas.
Para vos dar um mero exemplo,
creio ser indiscutível que, como militante do PCP inserido numa
organização na Amadora, tenho muito mais possibilidades de pedir
informações ou escrutinar a acção dos eleitos na CDU no poder
local do concelho do que terão os milhares de cidadãos que se
limitaram a subscrever as candidaturas autárquicas ditas de
«independentes» mas, de facto e juridicamente propostas por
«grupos de cidadãos eleitores».
A
minha quarta
observação visa salientar que nem por um segundo me passa pela
cabeça ignorar, desvalorizar ou menosprezar os sinais ou sintomas do
que insistemente se refere como a crise na confiança no sistema
político, a desconfiança nos partidos ou a desafeição em relação
à própria democracia, matérias sobre os quais há os suficientes e preocupantes
sinais nacionais e sobretudo internacionais.
Distintamente do que todos os dias me é impingido nos media, considero entretanto que é preciso mais prudência e finura em alguns juízos peremptórios e definitivos que, para além de outros relevantes aspectos, me parecem não ter em conta aquilo a que eu chamaria de «ambivalência dos cidadãos» (ou eleitores ou inquiridos em sondagens).
Com efeito, nunca me esqueço de que, num estudo dirigido pelo Prof. André Freire sobre as eleições legislativas de 2002, realizado no âmbito do Instituto de Ciências Sociais, havia salvo erro uma pergunta sobre se os inquiridos consideravam os partidos todos iguais e uma aterradora e elevadíssima percentagem respondia positivamente que sim.
Perante este dado, fiquei a pensar que na maioria das restantes perguntas do inquérito, sobretudo as respeitantes a partidos ou dirigentes partidários, aquela devastadora percentagem se iria borrifar nessas perguntas e engrossar o item dos que «não sabem/não respondem».
Estava a ser perfeitamente tolo. A verdade é que os mesmos que tinham manifestado a opinião de que os partidos eram todos iguais ou comungavam dos mesmos defeitos nem por isso, nas outras perguntas, deixaram de ter opiniões detalhadas e diferenciadas sobre quem estava mais à esquerda. mais ao centro ou mais à direita ou de manifestar diferentes graus de concordância ou apoio à acção dos líderes partidários.
Ainda a este respeito, só quero lembrar que na habitual sondagem do Expresso. no item sobre a apreciação dos líderes partidários, só para citar dois exemplos em que me parece não se poder dizer que se trata dos mesmos inquiridos, Jerónimo de Sousa reune 32% de apreciações positivas e Passos Coelho cerca de 22%. O que me parece indicar que pelo menos 54% dos inquiridos aprecia positivamente ou confia em alguma coisa.
Distintamente do que todos os dias me é impingido nos media, considero entretanto que é preciso mais prudência e finura em alguns juízos peremptórios e definitivos que, para além de outros relevantes aspectos, me parecem não ter em conta aquilo a que eu chamaria de «ambivalência dos cidadãos» (ou eleitores ou inquiridos em sondagens).
Com efeito, nunca me esqueço de que, num estudo dirigido pelo Prof. André Freire sobre as eleições legislativas de 2002, realizado no âmbito do Instituto de Ciências Sociais, havia salvo erro uma pergunta sobre se os inquiridos consideravam os partidos todos iguais e uma aterradora e elevadíssima percentagem respondia positivamente que sim.
Perante este dado, fiquei a pensar que na maioria das restantes perguntas do inquérito, sobretudo as respeitantes a partidos ou dirigentes partidários, aquela devastadora percentagem se iria borrifar nessas perguntas e engrossar o item dos que «não sabem/não respondem».
Estava a ser perfeitamente tolo. A verdade é que os mesmos que tinham manifestado a opinião de que os partidos eram todos iguais ou comungavam dos mesmos defeitos nem por isso, nas outras perguntas, deixaram de ter opiniões detalhadas e diferenciadas sobre quem estava mais à esquerda. mais ao centro ou mais à direita ou de manifestar diferentes graus de concordância ou apoio à acção dos líderes partidários.
Ainda a este respeito, só quero lembrar que na habitual sondagem do Expresso. no item sobre a apreciação dos líderes partidários, só para citar dois exemplos em que me parece não se poder dizer que se trata dos mesmos inquiridos, Jerónimo de Sousa reune 32% de apreciações positivas e Passos Coelho cerca de 22%. O que me parece indicar que pelo menos 54% dos inquiridos aprecia positivamente ou confia em alguma coisa.
Uma quinta observação visa
transmitir-vos a minha inquieta constatação de que, no quadro de
tantas legitimas interpelações ou criticas aos sistemas políticos,
ocupa entretanto um lugar ínfimo a crítica ou condenação dos
sistemas eleitorais maioritários que, de forma brutal, já há mais
de 25 de anos classifiquei de « escrutínio de ladrões» mas que a
maior parte das vezes são tratados ou apresentados como um das
opções técnicas em presença, para já não falar das vezes em que
não poucos põem o objectivo da «governabilidade» à frente do
respeito pela vontade realmente expressa pelos eleitores.
É assim que passa quase sem escândalo de maior que nos EUA possam ter
tido um presidente que teve menos votos que o seu concorrente, que
haja países – Grécia, Itália – onde se dá um bonús de maioria de deputados
ao partido mais votado , o que só pode significar o facto muito
esquecido de que então foram roubados a outros partidos os deputados
correspondentes a votos que tiveram e que haja países –
Grã-Bretanha, Estados Unidos - onde por detrás do principio geral «the winner takes
all» se esconde a inutilização do voto de milhões de cidadãos e
um para mim infame sistema de desigualdade na eficácia de voto entre
os cidadãos.
Uma sexta observação prende-se com o facto de a toda a hora se falar da incapacidade de os partidos corresponderem às expectativas ou anseios dos cidadãos mas ninguém querer ter em conta que hoje em dia e desde há algumas décadas, os partidos políticos, talvez com excepção dos partidos do governo, pesarem muito menos no curso da vida política do que acontecia no passado e do que muita gente ainda hoje imagina.
Na verdade, creio que constitui quase um tabu reconhecer ou admitir que, nos tempos que correm, o sistema mediático tem, por diversas vias, uma maior influência na agenda e na vida políticas do que os partidos da oposição.
Quero com isto dizer que os órgãos de informação são hoje dos principais actores da vida política e no entanto todos os dias nos querem fazer crer que analisam a vida política, isentos e superiores, do cimo de uma enorme grua.
Apenas um exemplo, entre dezenas possíveis: na sequência de duas outras grandes iniciativas realizadas na década de 90 e típicas da chamada «abertura dos partidos à sociedade», também em 2003 o PCP realizou uma iniciativa de debate dos problemas nacionais intitulada «Em Movimento, por um Portugal com Futuro» e aberta a quem nela quisesse participar e contando como oradores também personalidades independentes e até de outros quadrantes políticos.
Porém, ao intervir na abertura da sessão de encerramento desta iniciativa, fui obrigado a declarar o seguinte : «(...) Não apenas por respeito pela verdade mas sobretudo como contribuição para que ninguém ignore as dificuldades e adversidades que enfrentamos, merece uma referência o facto de a iniciativa «Em movimento, por um Portugal com futuro» e os mais de 50 debates que no seu âmbito foram realizados tiveram direito, por junto e considerando os principais jornais de expansão nacional, a cerca de oito notícias, a grande maioria das quais referentes à sessão de apresentação da iniciativa.» E acrescentava de seguida: «Nada disto impedirá que nestes mesmos meios de informação onde faltaram notícias sobre estes 50 debates do PCP, não tenham faltado no último ano e não venham a faltar nos próximos anos doutas opiniões e definitivas sentenças de que os partidos da oposição, e em especial o PCP, não se abrem à sociedade e se consomem apenas a dizer mal do governo do país e que são incapazes de apresentar propostas construtivas e fundamentadas de políticas alternativas».
A sétima observação (por favor, respirem agora de alívio porque é a última) é sobretudo para vos informar que a minha falta de visão sobre a hierarquia dos temas me leva a não falar dessa matéria crucial que são as ideias circulantes sobre reformas do sistema político e que envolvem ideias como as de primárias nos partidos para escolher os seus candidatos às autarquias ou à AR, a criação de círculos uninominais para maior «aproximação dos deputados aos eleitores» ou mesmo a apresentação de listas de candidatos ditos «independentes» à AR com votação nominal na listas dos partidos ( aqui só uma nota para informar que no meu blogue e no Facebook lancei de boa-fé oito perguntas concretas sobre esta ideia e que ainda hoje estou à espera de resposta).
Na impossibilidade de falar decentemente sobre estas importantes questões deixo-vos apenas duas notas que vos poderão parecer acessórias mas que talvez não sejam :
- a primeira é que se na Amadora, onde vivo, fosse criada qualquer circunscrição eleitoral de eleição uninominal de um deputado que abrangesse a minha freguesia, a CDU não teria qualquer possibilidade de vencer essa eleição e, nesse caso, eu não quereria qualquer proximidade com o deputado eleito do PS ou do PSD e só quereria mesmo distância;
A sétima observação (por favor, respirem agora de alívio porque é a última) é sobretudo para vos informar que a minha falta de visão sobre a hierarquia dos temas me leva a não falar dessa matéria crucial que são as ideias circulantes sobre reformas do sistema político e que envolvem ideias como as de primárias nos partidos para escolher os seus candidatos às autarquias ou à AR, a criação de círculos uninominais para maior «aproximação dos deputados aos eleitores» ou mesmo a apresentação de listas de candidatos ditos «independentes» à AR com votação nominal na listas dos partidos ( aqui só uma nota para informar que no meu blogue e no Facebook lancei de boa-fé oito perguntas concretas sobre esta ideia e que ainda hoje estou à espera de resposta).
Na impossibilidade de falar decentemente sobre estas importantes questões deixo-vos apenas duas notas que vos poderão parecer acessórias mas que talvez não sejam :
- a primeira é que se na Amadora, onde vivo, fosse criada qualquer circunscrição eleitoral de eleição uninominal de um deputado que abrangesse a minha freguesia, a CDU não teria qualquer possibilidade de vencer essa eleição e, nesse caso, eu não quereria qualquer proximidade com o deputado eleito do PS ou do PSD e só quereria mesmo distância;
- a segunda é que não ignorando que a política se faz com o rosto e a voz de homens e mulheres e com a singularidade das suas convicções ou paixão política, chamo a vossa atenção para que a pulsão a favor de uma extremada personalização da política não tem nada de moderno e é mesmo do que mais houve na Europa no final do Século XIX e principios do Século XX. A tal ponto que, neste último período, há uma frase de Jean Jaurés que representa um poderoso apelo à revalorização das ideias e dos projectos políticos e não tanto das personalidades individuais.
Agora fechando mesmo: pode ser pouco para as urgências que muitos sentimos nestes tempos ásperos, incertos e devastadores que amarguram o nosso viver colectivo mas, por mim, revejo-me nesta espécie de compromisso constante de uma frase de Albert Camus: « A própria luta em direcção aos cumes chega para encher o coração de um homem. É preciso imaginar um Sísifo feliz».
13 de fevereiro de 2013
Para quem fala de cor aqui fica o célebre « Ñovo Impulso»
Por um novo impulso na organização,
intervenção e afirmação política do Partido
intervenção e afirmação política do Partido
Comunicado
do Comité Central do PCP
do Comité Central do PCP
15 de Fevereiro de 1998
O Comité Central procedeu a um primeiro exame e balanço, em linhas gerais, quer da acção do Partido desde a realização do XV Congresso, em Dezembro de 1996, quer dos complexos e exigentes desafios que o Partido deverá enfrentar num futuro próximo.
Em resultado dessa análise, que inclui naturalmente indicações e preocupações há muito existentes mas, em alguns casos, tornadas mais visíveis pelos resultados das eleições autárquicas, o Comité Central propõe a todos os militantes e organizações do Partido o desenvolvimento de um vasto movimento de reflexão, debate, tomada de decisões e adopção de medidas, visando dar um novo e vigoroso impulso à concretização de orientações definidas no XV Congresso que se consideram essenciais para adinamização, renovação e maior eficácia política da organização e intervenção do PCP, e para a ampliação da sua influência na classe operária e nos trabalhadores, na sociedade portuguesa.
Em resultado dessa análise, que inclui naturalmente indicações e preocupações há muito existentes mas, em alguns casos, tornadas mais visíveis pelos resultados das eleições autárquicas, o Comité Central propõe a todos os militantes e organizações do Partido o desenvolvimento de um vasto movimento de reflexão, debate, tomada de decisões e adopção de medidas, visando dar um novo e vigoroso impulso à concretização de orientações definidas no XV Congresso que se consideram essenciais para adinamização, renovação e maior eficácia política da organização e intervenção do PCP, e para a ampliação da sua influência na classe operária e nos trabalhadores, na sociedade portuguesa.
I
Uma perspectiva mobilizadora e combativa de afirmação,
crescimento e dinamismo do Partido
Uma perspectiva mobilizadora e combativa de afirmação,
crescimento e dinamismo do Partido
1. O Comité Central decide promover um esforço consistente e empenhado para, a todos os níveis da organização partidária, e tendo como ponto de partida um movimento geral de realização de assembleias das organizações e reuniões de militantes e de organismos, reanimar e renovar processos de trabalho e de funcionamento, e identificar as deficiências e insuficiências que mais afectam a acção do Partido. Trata-se de, na base indispensável e determinante da mobilização, da reflexão, da experiência e das opiniões de todo o colectivo partidário, apurar e definir as orientações e medidas que mais favoreçam o objectivo central de rasgar uma perspectiva mobilizadora e combativa de afirmação, crescimento e dinamismo do Partido, que seja sustentada por sua maior e melhor presença e intervenção na sociedade portuguesa.
2. Neste sentido, o Comité Central propõe que, de forma integrada, complementar e indissociável, sejam consideradas de imediato como grandes áreas de reflexão, intervenção e decisão prioritárias:
2. Neste sentido, o Comité Central propõe que, de forma integrada, complementar e indissociável, sejam consideradas de imediato como grandes áreas de reflexão, intervenção e decisão prioritárias:
- orientações e medidas de revigoramento e rejuvenescimento da organização do Partido, de alargamento da sua base militante e de maior responsabilização dos militantes visando um maior enraizamento e intervenção das organizações de base nas lutas, problemas e aspirações das classes e camadas sociais, dos sectores profissionais e das comunidades onde se inserem, e favorecendo, assim, o fortalecimento das organizações sociais e das lutas de massas;
- desenvolvimento, nos diversos planos de intervenção e frentes de trabalho, de novas linhas de iniciativa política que favoreçam uma mais forte afirmação do PCP como partido de luta e partido de projecto, como partido dotado de uma estratégia integradora da sua intervenção política e social, como partido firmemente empenhado em impulsionar a agregação de forças, energias e aspirações democráticas e de esquerda, que é indispensável para a concretização de uma alternativa progressista à mera alternância entre PS e PSD na realização da política de direita;
- medidas de fortalecimento e renovação da capacidade de direcção no Partido, com destaque, entre outros aspectos, para a melhoria da coordenação política e planeamento da intensa e diversificada actividade do Partido, uma maior e mais dinâmica elaboração e projecção das suas propostas e do seu projecto, a adopção de linhas de trabalho e medidas concretas que, tendo em conta as prioridades, ajudem ao avanço do Partido nas regiões, zonas e sectores de menor influência, a formação ideológica dos quadros, a dinamização e maior difusão do «Avante!» e, em geral, da imprensa do Partido, a criação de condições para a melhoria do trabalho do Comité Central.
3. Na área da organização partidária, o Comité Central propõe-se dinamizar a concretização das orientações traçadas pelo XV Congresso:
- um forte impulso à renovação e rejuvenescimento das organizações e estruturas partidáriasonde, a par da procura de novas adesões, devem ser tomadas medidas para a integração orgânica de jovens militantes, de mulheres e dos camaradas que nos últimos anos vieram ao Partido, bem como uma maior atenção ao papel, acção e reforço da JCP;
- um plano de acção para o reforço da organização e intervenção junto dos trabalhadores, com medidas concretas, meios e quadros, linha de luta reivindicativa e iniciativa política, no sentido das conclusões da Conferência Nacional realizada em Novembro de 1994;
- um criativo e diversificado trabalho de organização e iniciativa política para elevar a militância e valorizar o papel do militante. Militância que deve significar o assumir pelos comunistas o seu Partido. Militância que traduza e dinamize um aprofundamento da democracia interna e uma persistente procura de formas de trabalho orgânico e político, que incentivem uma participação activa dos membros do Partido. Militância que, a par do reforço do quadro de funcionários com tarefas de organização, alargue o assumir de responsabilidades por camaradas não funcionários, libertando assim forças para tarefas mais exigentes, designadamente em disponibilidade e mobilidade dos quadros. Militância que deve significar o crescimento do núcleo activo do Partido, que neste processo deve também ser mais rigorosamente conhecido e quantificado em balanço de organização;
- um grande e empenhado movimento de revitalização das estruturas de base do Partido. O Comité Central decide lançar um movimento geral e planificado de Assembleias das organizações de base. Movimento que deve partir de uma identificação rigorosa em cada organização regional dessas estruturas - as células por local de trabalho, por local de residência ou por sector socioprofissional. Uma identificação que, tendo em conta a divisão administrativa do País, não a siga mecanicamente, antes seja capaz de concentrar massa militante, quadros e meios adequados aos objectivos e funcionamento de uma organização de base. Assembleias que, procurando ser amplamente participadas devem realizar-se sem formalismos, constituindo espaços abertos de reflexão, debate e tomada de decisões. Assembleias que, quando electivas, devem realizar a eleição dos organismos dirigentes que, por sua vez e nos termos estatutários, «devem distribuir tarefas entre os seus membros». Nessa responsabilização individual, deve incluir-se a possibilidade da escolha/eleição, no âmbito do organismo, do ou da camarada que vai coordenar e dinamizar o funcionamento do colectivo, no quadro dos princípios estatutários. Assembleias para determinar respostas, para definir e dinamizar iniciativas, para reforçar a organização dos comunistas portugueses, para um reposicionamento crítico da célula como «alicerce e o elo fundamental da ligação do Partido com a classe operária, com os trabalhadores, com as massas populares», e «suporte essencial para promover, orientar e desenvolver a luta e a acção de massas».
No sentido de uma profunda revalorização e impulso ao funcionamento das organizações e organismos de base, o Comité Central manifesta a vantagem na participação e/ou integração da generalidade dos quadros do Partido nas organizações e organismos de base, procurando-se assim um mais completo e integral aproveitamento do enorme capital de experiência política e o simultâneo enriquecimento de muitos quadros.
4. No movimento geral de assembleias e reuniões de militantes e de organismos, são pontos importantes, o questionamento sobre o estado e modo da relação política das organizações e dos comunistas com as populações, com os colegas de trabalho e vizinhos; sobre a sua intervenção nas colectividades, nas associações culturais ou desportivas; sobre o papel e trabalho dos comunistas no exercício do poder local ou em associações de classe; sobre a batalha das ideias, de informação e esclarecimento que travamos (ou não travamos) nesta empresa, nesta rua, neste bairro, nesta freguesia ou cidade, pelos objectivos programáticos ou mais imediatos do PCP, contra o descrédito e desvirtuamento do regime democrático e da acção política, e o abstencionismo cívico e eleitoral. O questionamento sobre a forma de estar e de agir dos comunistas nas lutas dos trabalhadores e das populações, nos movimentos sociais e cívicos.
Em particular, uma grande atenção deve ser dada à reflexão e à tomada de medidas para o aproveitamento do enorme potencial de intervenção política e de reforço do Partido, que constituem os milhares de cidadãos e cidadãs que, como independentes, participaram nas listas CDU nas recentes eleições autárquicas, e com os quais devem ser encontradas formas mais ou menos regulares de contacto para a coordenação e desenvolvimento de trabalho nas autarquias e na defesa dos interesses populares.
5. Ainda no decurso do primeiro semestre deste ano, o Comité Central procederá a um balanço das medidas adoptadas e do debate realizado no Partido e das principais contribuições que tenham sido obtidas para o prosseguimento e aprofundamento de direcções de trabalho cruciais para o reforço da influência social, política e eleitoral do PCP e do seu papel na democracia portuguesa.
4. No movimento geral de assembleias e reuniões de militantes e de organismos, são pontos importantes, o questionamento sobre o estado e modo da relação política das organizações e dos comunistas com as populações, com os colegas de trabalho e vizinhos; sobre a sua intervenção nas colectividades, nas associações culturais ou desportivas; sobre o papel e trabalho dos comunistas no exercício do poder local ou em associações de classe; sobre a batalha das ideias, de informação e esclarecimento que travamos (ou não travamos) nesta empresa, nesta rua, neste bairro, nesta freguesia ou cidade, pelos objectivos programáticos ou mais imediatos do PCP, contra o descrédito e desvirtuamento do regime democrático e da acção política, e o abstencionismo cívico e eleitoral. O questionamento sobre a forma de estar e de agir dos comunistas nas lutas dos trabalhadores e das populações, nos movimentos sociais e cívicos.
Em particular, uma grande atenção deve ser dada à reflexão e à tomada de medidas para o aproveitamento do enorme potencial de intervenção política e de reforço do Partido, que constituem os milhares de cidadãos e cidadãs que, como independentes, participaram nas listas CDU nas recentes eleições autárquicas, e com os quais devem ser encontradas formas mais ou menos regulares de contacto para a coordenação e desenvolvimento de trabalho nas autarquias e na defesa dos interesses populares.
5. Ainda no decurso do primeiro semestre deste ano, o Comité Central procederá a um balanço das medidas adoptadas e do debate realizado no Partido e das principais contribuições que tenham sido obtidas para o prosseguimento e aprofundamento de direcções de trabalho cruciais para o reforço da influência social, política e eleitoral do PCP e do seu papel na democracia portuguesa.
II
Uma orientação estratégica clara e afirmada:
um projecto de esquerda e de poder,
para um novo rumo democrático
Uma orientação estratégica clara e afirmada:
um projecto de esquerda e de poder,
para um novo rumo democrático
1. Apesar da derrota dos partidos da direita nas legislativas de Outubro de 1995, e do facto de socialistas e comunistas terem passado a dispor da maioria dos lugares na Assembleia da República, as possibilidades que então podiam ter-se aberto para a concretização de uma viragem democrática, no sentido da esquerda, da situação nacional, não tiveram qualquer expressão devido às opções tomadas pelo PS.
O Governo PS, tendo embora introduzido alterações de estilo e mudanças de orientação em alguns aspectos sectoriais, manteve, inalteradas as principais políticas que vinham sendo conduzidas pelos governos anteriores. Prosseguiu o ataque a direitos dos trabalhadores e uma política de repartição da riqueza desfavorável aos trabalhadores e às camadas da população mais desfavorecidas. Acelerou o processo das privatizações, inclusive de empresas públicas fornecedoras de serviços e bens essenciais (EDP, PT, etc.). Promoveu novas medidas de descaracterização do regime democrático, designadamente através da revisão constitucional. Manteve a política externa e uma política de integração europeia caracterizada pela subordinação dos interesses nacionais aos das principais potências e aos dogmas neoliberais do grande capital financeiro. Estas orientações foram facilitadas pelo facto de o PS ter tido uma votação que o levou muito próximo da maioria absoluta.
A estratégia das forças de direita, protagonizada na primeira linha pelo PSD, evidencia-se com crescente nitidez. Por um lado, essas forças acompanham as opções fundamentais do Governo do PS, que correspondem, em grande medida, às suas. Mas, por outro lado, movem-se de forma activa com o objectivo de reagrupamento de um bloco à direita e de capitalização por parte da direita do descontentamento social e da frustração que alastram em amplos sectores sociais, com correspondência política no eleitorado do centro e da esquerda.
2. O Comité Central adverte ser previsível que, com a aproximação das eleições legislativas, o PS e o PSD procurarão cada vez mais aprisionar os eleitores na falsa opção entre manter o PS no governo, com uma política de direita, e o regresso da direita ao governo.
E desde já sublinha que, neste quadro, a acção, a intervenção e a iniciativa política do PCP devem ter como grande eixo unificador o objectivo de favorecer que se amplie a compreensão e consciência de que é possível uma alternativa progressista e de esquerda à alternância entre PS e PSD na realização de uma política no essencial semelhante, e que será o reforço da influência eleitoral do PCP (e uma diferente correlação de forças entre o PCP e o PS) que melhor inviabilizará tanto uma reabilitação eleitoral da direita como a continuação da actual política do PS, e que mais favorecerá uma verdadeira alternativa democrática e uma nova política.
3. É neste quadro e circunstâncias que as eleições legislativas e europeias, previstas para o próximo ano, tendem a exercer uma influência cada vez mais determinante na vida nacional. Marcam a fase de intensificação da vida política e social em que o País já entrou. Podem comportar especiais dificuldades ligadas ao avanço de linhas de descaracterização do regime democrático constitucional que o PS e o PSD estão procurando impor. Apresentam acrescidas exigências e renovadas possibilidades de intervenção aos comunistas e a todos os restantes sectores e sensibilidades de esquerda. E, associadas à luta popular de massas, recolocam, não só a necessidade mas a possibilidade e a importância da criação de condições para uma inflexão, no sentido da esquerda, do rumo político nacional.
O Comité Central reafirma que o PCP está fortemente empenhado em fortalecer, ampliar e enriquecer a sua intervenção, enquanto partido dotado de um projecto político transformador e portador de uma contribuição essencial para uma alternativa de esquerda, mas, ao mesmo tempo recusa deixar-se aprisionar e dissolver numa «vida política» crescentemente marcada pelo espalhafato, pela superficialidade, pelo artificialismo e pelo efémero, antes sustentando que a sua escolha é, de há muito, a da intervenção e acção políticas, próximas dos problemas e preocupações dos cidadãos, mobilizadora das suas iniciativas e lutas, agregadora das aspirações a nova política.
Particulares responsabilidades e exigências se colocam, por isso, aos comunistas e ao seu Partido, nas diversas frentes de intervenção e de luta.
Sem prejuízo da ulterior fixação de orientações especificamente destinadas à participação nos actos eleitorais do próximo ano, o Comité Central aponta, desde já, sem prejuízo de outros temas, o necessário aprofundamento e desenvolvimento de cinco grandes linhas para a sua intervenção política:
1ª - Contribuir para a afirmação de uma esquerda e de um projecto que suporte a perspectiva, a possibilidade e a luta pela concretização de um novo rumo democrático para Portugal. Esta contribuição, no quadro da intensificação da luta social e de uma forte afirmação do PCP, através da sua voz e das suas propostas, envolve igualmente uma forte disponibilidade de abertura e de empenho do PCP, para participar num alargado e genuíno processo de diálogo e de debate, à esquerda, susceptível de estabelecer pontes e de construir convergências que contribuam para viabilizar um projecto de poder. Um processo respeitador da pluralidade das expressões e das diferenças, que reuna individualidades, sectores e sensibilidades políticas que se situam criticamente em relação às orientações neoliberais, mobilizador e envolvente de movimentos e forças sociais e culturais diversas, com particular atenção para a participação da juventude e das mulheres. E permanentemente aberto à participação directa dos cidadãos.
2ª - Prosseguir a afirmação do PCP como oposição de esquerda, combativa, consequente e responsável. A contraposição de propostas de política alternativa, de esquerda, às orientações de inspiração neoliberal adoptadas pelo Governo, constitui por isso um contributo essencial do PCP - que importa potenciar ainda mais - para todo o debate político e das ideias. Fundamental para a abertura de alternativas políticas reais, que sustentem os interesses dos trabalhadores e de sectores sociais muito amplos, e que promovam os interesses nacionais, no actual quadro comunitário e global em que necessitam de ser activamente afirmados. Neste contexto, o PCP continuará a confrontar e desafiar o PS relativamente a importantes promessas não cumpridas, constantes do «Contrato de Legislatura» e do «Programa Eleitoral».
3ª - Defender activamente uma política de desenvolvimento e de emprego, com direitos, com uma justa repartição do rendimento nacional e a defesa e preservação do ambiente. Uma política que defenda e valorize a produção nacional e estimule a dinamização do mercado interno. O PCP empenhar-se-á em lutar pela melhoria dos salários, reformas e outras prestações sociais, pelas 40 horas e combaterá os privilégios à finança e às actividades especulativas, e defenderá uma nova política fiscal, prosseguirá o seu combate ao crescente domínio do poder económico sobre o poder político e à privatização de empresas e serviços públicos, e intensificará a luta por um sector público forte e renovado e por serviços públicos de qualidade.
4ª - Sustentar a realização de reformas democráticas nas áreas da educação, saúde e segurança social, combatendo a desresponsabilização do Estado nestas áreas e o crescente negocismo privatizador e lutando pela melhoria de funções públicas e de prestações sociais essenciais para o nível e qualidade de vida e o futuro dos portugueses.
5ª - Lutar por um novo rumo para a construção europeia, por uma Europa de paz, cooperação e «coesão económica e social», por uma Europa de nações soberanas e iguais. O PCP juntará os seus esforços em convergência com outros partidos comunistas, forças de esquerda e progressistas a nível da União Europeia, na luta pelo emprego, pela redução do horário de trabalho, pelo nivelamento por cima das conquistas sociais e na luta contra o tráfico de droga e da toxicodependência.
O Governo PS, tendo embora introduzido alterações de estilo e mudanças de orientação em alguns aspectos sectoriais, manteve, inalteradas as principais políticas que vinham sendo conduzidas pelos governos anteriores. Prosseguiu o ataque a direitos dos trabalhadores e uma política de repartição da riqueza desfavorável aos trabalhadores e às camadas da população mais desfavorecidas. Acelerou o processo das privatizações, inclusive de empresas públicas fornecedoras de serviços e bens essenciais (EDP, PT, etc.). Promoveu novas medidas de descaracterização do regime democrático, designadamente através da revisão constitucional. Manteve a política externa e uma política de integração europeia caracterizada pela subordinação dos interesses nacionais aos das principais potências e aos dogmas neoliberais do grande capital financeiro. Estas orientações foram facilitadas pelo facto de o PS ter tido uma votação que o levou muito próximo da maioria absoluta.
A estratégia das forças de direita, protagonizada na primeira linha pelo PSD, evidencia-se com crescente nitidez. Por um lado, essas forças acompanham as opções fundamentais do Governo do PS, que correspondem, em grande medida, às suas. Mas, por outro lado, movem-se de forma activa com o objectivo de reagrupamento de um bloco à direita e de capitalização por parte da direita do descontentamento social e da frustração que alastram em amplos sectores sociais, com correspondência política no eleitorado do centro e da esquerda.
2. O Comité Central adverte ser previsível que, com a aproximação das eleições legislativas, o PS e o PSD procurarão cada vez mais aprisionar os eleitores na falsa opção entre manter o PS no governo, com uma política de direita, e o regresso da direita ao governo.
E desde já sublinha que, neste quadro, a acção, a intervenção e a iniciativa política do PCP devem ter como grande eixo unificador o objectivo de favorecer que se amplie a compreensão e consciência de que é possível uma alternativa progressista e de esquerda à alternância entre PS e PSD na realização de uma política no essencial semelhante, e que será o reforço da influência eleitoral do PCP (e uma diferente correlação de forças entre o PCP e o PS) que melhor inviabilizará tanto uma reabilitação eleitoral da direita como a continuação da actual política do PS, e que mais favorecerá uma verdadeira alternativa democrática e uma nova política.
3. É neste quadro e circunstâncias que as eleições legislativas e europeias, previstas para o próximo ano, tendem a exercer uma influência cada vez mais determinante na vida nacional. Marcam a fase de intensificação da vida política e social em que o País já entrou. Podem comportar especiais dificuldades ligadas ao avanço de linhas de descaracterização do regime democrático constitucional que o PS e o PSD estão procurando impor. Apresentam acrescidas exigências e renovadas possibilidades de intervenção aos comunistas e a todos os restantes sectores e sensibilidades de esquerda. E, associadas à luta popular de massas, recolocam, não só a necessidade mas a possibilidade e a importância da criação de condições para uma inflexão, no sentido da esquerda, do rumo político nacional.
O Comité Central reafirma que o PCP está fortemente empenhado em fortalecer, ampliar e enriquecer a sua intervenção, enquanto partido dotado de um projecto político transformador e portador de uma contribuição essencial para uma alternativa de esquerda, mas, ao mesmo tempo recusa deixar-se aprisionar e dissolver numa «vida política» crescentemente marcada pelo espalhafato, pela superficialidade, pelo artificialismo e pelo efémero, antes sustentando que a sua escolha é, de há muito, a da intervenção e acção políticas, próximas dos problemas e preocupações dos cidadãos, mobilizadora das suas iniciativas e lutas, agregadora das aspirações a nova política.
Particulares responsabilidades e exigências se colocam, por isso, aos comunistas e ao seu Partido, nas diversas frentes de intervenção e de luta.
Sem prejuízo da ulterior fixação de orientações especificamente destinadas à participação nos actos eleitorais do próximo ano, o Comité Central aponta, desde já, sem prejuízo de outros temas, o necessário aprofundamento e desenvolvimento de cinco grandes linhas para a sua intervenção política:
1ª - Contribuir para a afirmação de uma esquerda e de um projecto que suporte a perspectiva, a possibilidade e a luta pela concretização de um novo rumo democrático para Portugal. Esta contribuição, no quadro da intensificação da luta social e de uma forte afirmação do PCP, através da sua voz e das suas propostas, envolve igualmente uma forte disponibilidade de abertura e de empenho do PCP, para participar num alargado e genuíno processo de diálogo e de debate, à esquerda, susceptível de estabelecer pontes e de construir convergências que contribuam para viabilizar um projecto de poder. Um processo respeitador da pluralidade das expressões e das diferenças, que reuna individualidades, sectores e sensibilidades políticas que se situam criticamente em relação às orientações neoliberais, mobilizador e envolvente de movimentos e forças sociais e culturais diversas, com particular atenção para a participação da juventude e das mulheres. E permanentemente aberto à participação directa dos cidadãos.
2ª - Prosseguir a afirmação do PCP como oposição de esquerda, combativa, consequente e responsável. A contraposição de propostas de política alternativa, de esquerda, às orientações de inspiração neoliberal adoptadas pelo Governo, constitui por isso um contributo essencial do PCP - que importa potenciar ainda mais - para todo o debate político e das ideias. Fundamental para a abertura de alternativas políticas reais, que sustentem os interesses dos trabalhadores e de sectores sociais muito amplos, e que promovam os interesses nacionais, no actual quadro comunitário e global em que necessitam de ser activamente afirmados. Neste contexto, o PCP continuará a confrontar e desafiar o PS relativamente a importantes promessas não cumpridas, constantes do «Contrato de Legislatura» e do «Programa Eleitoral».
3ª - Defender activamente uma política de desenvolvimento e de emprego, com direitos, com uma justa repartição do rendimento nacional e a defesa e preservação do ambiente. Uma política que defenda e valorize a produção nacional e estimule a dinamização do mercado interno. O PCP empenhar-se-á em lutar pela melhoria dos salários, reformas e outras prestações sociais, pelas 40 horas e combaterá os privilégios à finança e às actividades especulativas, e defenderá uma nova política fiscal, prosseguirá o seu combate ao crescente domínio do poder económico sobre o poder político e à privatização de empresas e serviços públicos, e intensificará a luta por um sector público forte e renovado e por serviços públicos de qualidade.
4ª - Sustentar a realização de reformas democráticas nas áreas da educação, saúde e segurança social, combatendo a desresponsabilização do Estado nestas áreas e o crescente negocismo privatizador e lutando pela melhoria de funções públicas e de prestações sociais essenciais para o nível e qualidade de vida e o futuro dos portugueses.
5ª - Lutar por um novo rumo para a construção europeia, por uma Europa de paz, cooperação e «coesão económica e social», por uma Europa de nações soberanas e iguais. O PCP juntará os seus esforços em convergência com outros partidos comunistas, forças de esquerda e progressistas a nível da União Europeia, na luta pelo emprego, pela redução do horário de trabalho, pelo nivelamento por cima das conquistas sociais e na luta contra o tráfico de droga e da toxicodependência.
III
Uma confiante intervenção política e de massas
junto dos trabalhadores e das populações
Uma confiante intervenção política e de massas
junto dos trabalhadores e das populações
1. Na sequência dos resultados das eleições autárquicas, foi desencadeada uma intensa e articulada ofensiva que, no plano político e ideológico, tem procurado deturpar, caricaturar e denegrir aspectos essenciais da orientação da intervenção e do posicionamento político do PCP.
Essa ofensiva tem procurado, nomeadamente, apresentar o PCP como um partido que faria do PS o seu «inimigo principal» e adoptaria, perante o partido do Governo, uma atitude de intransigência e de recusa ao diálogo, que praticaria uma oposição cega e sistemática em relação à política do Governo e que, supostamente desprovido de um projecto e de propostas construtivas, estaria meramente acantonado na defesa de interesses sociais muito limitados.
O Comité Central salienta que tais acusações são frontalmente desmentidas pela orientação e acção do PCP, destinam-se a promover uma flagrante inversão de responsabilidades que proteja e absolva o PS, e representam novas expressões da fracassada ambição de arrastar o PCP para a cumplicidade com uma política cujas opções e eixos fundamentais sempre combateu.
O Comité Central considera oportuno recordar que os sucessivos entendimentos com a direita (ora com o PP, ora com o PSD, ora com ambos), que têm viabilizado as opções políticas fundamentais do Governo PS, longe de resultarem de qualquer estado de necessidade face a uma pretensa intransigência ou rigidez do PCP, antes resultam de uma escolha estratégica há muito feita pela direcção do PS, em estrita correspondência com o real conteúdo da sua política.
O Comité Central considera oportuno recordar que, sem prejuízo de uma firme demarcação face à política global do PS (essencial não apenas do ponto de vista do respeito pelos compromissos eleitorais do PCP, mas também para frustrar uma provável manobra da direita no sentido de vir a responsabilizar «a esquerda» e, portanto, também o PCP, pelo fracasso do Governo PS), o PCP nunca hesitou em se associar e concorrer, muitas vezes com os votos dos seus deputados, para a aprovação de medidas pontualmente positivas propostas pelo Governo ou pelo Grupo Parlamentar do PS, como foi o caso recente do Projecto de Lei sobre a IVG.
O Comité Central considera oportuno recordar que, como foi sublinhado no XV Congresso do PCP, e é sublinhado pelos factos, o que melhor define a atitude do PCP na sociedade portuguesa é, aos mais variados níveis de intervenção, o seu profundo empenho construtivo na solução dos problemas do povo e do País, a incomparável generosidade e dedicação que coloca ao serviço dos interesses populares, o seu rico património de luta e reflexão sobre as grandes questões e problemas da sociedade portuguesa, a constante contribuição dos seus militantes para o fortalecimento das organizações sociais, a obra valiosa que há vinte e dois anos realiza no poder local, a sua qualificada intervenção no Parlamento Europeu e na Assembleia da República, bastando lembrar a este respeito que, em sucessivas legislaturas, é quase sempre o PCP quem, com um relativamente diminuto número de deputados, apresenta um maior número de iniciativas legislativas, visando dar resposta a sentidos anseios e preocupações dos portugueses.
2. A construção de uma alternativa é reconhecidamente um processo exigente e complexo. Exigirá uma sensível alteração da actual correlação de forças sociais e políticas.
No abrir de caminhos para a alternativa continuam a pesar como factores incontornáveis, a força e amplitude dos movimentos e lutas sociais e o acerto e intensidade da intervenção política do PCP, na resposta aos problemas actuais da sociedade portuguesa, à política do Governo, aos posicionamentos dos restantes partidos.
É nesse sentido que o Comité Central apela à intensificação dos movimentos e lutas dos trabalhadores e das massas populares, em torno de problemas que quotidianamente os afectam, na exigência de uma nova política, como factor determinante para resistir à política de direita, alcançar a satisfação das reivindicações e abrir caminho a uma alternativa. O movimento sindical unitário, as comissões de trabalhadores, as associações de agricultores, de intelectuais, de estudantes, as colectividades e outras estruturas associativas e organizações sociais desempenham, neste processo, um papel fundamental.
Simultaneamente, o Comité Central considera da maior importância proceder a um aprofundado exame da situação social, da intervenção nas presentes circunstâncias dos diversos movimentos sociais e dos problemas das organizações que os suportam, das perspectivas que se abrem ao desenvolvimento das lutas de massas, e das orientações e da actividade dos comunistas que intervêm nesta esfera. Em conformidade, decide dedicar uma futura reunião a esses objectivos.
3. No contexto da actual situação política, e representando tarefas políticas de grande importância no ano em curso, o Comité Central destaca a necessidade da intensificação da luta por objectivos concretos e imediatos, e contra decisões e projectos particularmente gravosos anunciados pelo Governo.
Assim, é essencial o desenvolvimento da luta dos trabalhadores por aumentos salariais dignos, pelas 40 horas, em defesa da contratação colectiva, contra os despedimentos e a precarização das relações laborais, contra perigosas alterações da legislação de trabalho; dos estudantes e de docentes, contra a lei do financiamento do ensino superior público; dos professores, pais e estudantes, contra a imposição de uma lógica empresarial que põe em risco as escolas públicas do ensino básico e secundário e em defesa da sua direcção e gestão democráticas; das mulheres, contra discriminações e pela concretização da igualdade em todas as esferas da vida; dos reformados, pela melhoria das pensões, nomeadamente pela elevação significativa das mais degradadas; das populações, pela exigência de medidas efectivas de combate à toxicodependência, ao tráfico de droga e ao branqueamento de capitais; e sublinha a urgência de se ampliar a oposição popular às privatizações, designadamente de empresas prestadoras de serviços públicos essenciais, e aos escandalosos aumentos de preços que estão a induzir.
A curtíssimo prazo, será necessário travar uma árdua batalha contra os projectos do PS e do PSD de alterarem, em sentido antidemocrático, a legislação eleitoral, designadamente a respeitante às eleições legislativas, de modo a imporem a criação de círculos uninominais, cujo único real objectivo é o de pressionarem os eleitores no sentido da concentração de votos apenas no PS e no PSD, procurando diminuir a votação e a representação parlamentar do PCP.
O Comité Central, sublinhando a vantagem em que, vencendo as manobras dilatórias do PS, fique finalmente aprovada e entre em vigor a lei da criação das Regiões Administrativas no continente, considera, entretanto, indispensável que se alargue a consciência de que é por exclusiva responsabilidade do PS que, com alta probabilidade, poderá estar comprometida a concretização desta importante reforma democrática na presente legislatura. Com efeito, primeiro ao ligar a regionalização ao processo de revisão constitucional, depois ao ceder ao PSD na exigência de um referendo sobre uma reforma que está há 22 anos consagrada na Constituição, de seguida ao fazer depender o referendo da actualização dos cadernos eleitorais, por via da absurda e ilegítima exigência de participação de 50% dos eleitores no referendo sobre a regionalização - todos os comportamentos e atitudes essenciais do PS têm sido no sentido de complicar e inviabilizar, na prática, o processo de criação das regiões administrativas. É, assim, inteiramente legítimo reafirmar a prevenção há muito feita pelo PCP de que o núcleo mais responsável da direcção do PS há muito tempo que desistiu desta reforma, e de que, nesta matéria, todos os esforços do PS estão concentrados apenas em encontrar um bode expiatório, ou em responsabilizar outros, pelo incumprimento desta sua destacada promessa eleitoral.
Em matéria de integração europeia, o Comité Central declara ser completamente inaceitável pelo nosso País o conteúdo da chamada Agenda 2000, que visa estabelecer o enquadramento político-financeiro do alargamento aos países do Leste da Europa. Pelos limites ao crescimento da despesa comunitária que estabelece, pela proposta de reforma dos fundos estruturais que contém, incluindo a exclusão da Região de Lisboa e Vale do Tejo do objectivo 1, e pelas reformas da Política Agrícola Comum (PAC) e da Política Comum das Pescas que propõe, a Agenda 2000 significará, segundo estudos de insuspeitas instituições, que Portugal será, com o alargamento, o mais prejudicado dos actuais membros da União Europeia.
O Comité Central chama a atenção para que, quanto à adesão de Portugal à moeda única, toda a estratégia do Governo se baseia na sua apresentação como um facto consumado, ideia que as anunciadas campanhas de propaganda, em preparação a nível nacional e comunitário, procurarão consolidar ainda mais fortemente, como forma de impedir o debate alargado das suas reais consequências e travar o avanço das reservas e da oposição que um tal passo já hoje suscita em largos sectores da opinião pública nacional.
É, entretanto, indispensável ampliar a denúncia e o desmascaramento do «referendo-fraude» que o PS e PSD anunciam sobre «matéria europeia» (ao proporem uma pergunta destituída de qualquer eficácia e desonestamente redigida para obter um «sim» esmagador), e prosseguir a exigência de um referendo em que o povo português se possa pronunciar sobre as questões mais relevantes que, de facto, estão em causa - designadamente a participação de Portugal na moeda única e a sua sujeição ao Pacto de Estabilidade.
O PCP considera, entretanto, completamente inaceitável qualquer ideia de realização de dois referendos na mesma data (designadamente sobre regionalização e matéria europeia), como pretendem o PS e o PSD - numa demonstração clara de que não estão interessados em garantir condições de clareza e seriedade ao exercício da soberania popular.
Como tarefa política especialmente urgente, o Comité Central salienta a importância de, com confiança, se desenvolver um vasto movimento de opinião democrática, no sentido de exigir a votação final da lei aprovada pela Assembleia da República em 4 de Fevereiro, despenalizando a interrupção voluntária da gravidez em certas condições, e denunciar a vergonhosa combinação feita entre a direcção do PS e o PSD para a realização de um futuro referendo sobre este tema, combinação cujo único resultado prático imediato seria o de paralisar a aprovação final da lei, defraudando as expectativas legitimamente criadas de um avanço positivo na solução de um grave problema que afecta as mulheres portuguesas, e desprestigiando, de forma ostensiva, a própria Assembleia da República.
Finalmente, condenando o seguidismo do Governo face aos EUA, o PCP prosseguirá a luta contra oenvolvimento de Portugal na escalada agressiva contra o Iraque, apelando ao desenvolvimento de um diversificado movimento de oposição e protesto.
4. O Comité Central procedeu a uma primeira abordagem das linhas gerais do plano de trabalho e calendário de iniciativas do Partido em 1998, as quais perspectivam uma intensa e diversificada intervenção do PCP.
Desse conjunto, o Comité Central chama a atenção, pela sua importância, para as múltiplas iniciativas de comemoração do 77º aniversário do Partido (com destaque para o comício a realizar no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, a 7 de Março), para as iniciativas sobre o significado dos 150 anos do Manifesto Comunista e para a já anunciada realização da Festa do «Avante!», a 4, 5 e 6 de Setembro.
O Comité Central sublinha a especial importância de as comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maioconstituírem uma forte afirmação dos ideais e valores progressistas e da luta pelos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo português.
Essa ofensiva tem procurado, nomeadamente, apresentar o PCP como um partido que faria do PS o seu «inimigo principal» e adoptaria, perante o partido do Governo, uma atitude de intransigência e de recusa ao diálogo, que praticaria uma oposição cega e sistemática em relação à política do Governo e que, supostamente desprovido de um projecto e de propostas construtivas, estaria meramente acantonado na defesa de interesses sociais muito limitados.
O Comité Central salienta que tais acusações são frontalmente desmentidas pela orientação e acção do PCP, destinam-se a promover uma flagrante inversão de responsabilidades que proteja e absolva o PS, e representam novas expressões da fracassada ambição de arrastar o PCP para a cumplicidade com uma política cujas opções e eixos fundamentais sempre combateu.
O Comité Central considera oportuno recordar que os sucessivos entendimentos com a direita (ora com o PP, ora com o PSD, ora com ambos), que têm viabilizado as opções políticas fundamentais do Governo PS, longe de resultarem de qualquer estado de necessidade face a uma pretensa intransigência ou rigidez do PCP, antes resultam de uma escolha estratégica há muito feita pela direcção do PS, em estrita correspondência com o real conteúdo da sua política.
O Comité Central considera oportuno recordar que, sem prejuízo de uma firme demarcação face à política global do PS (essencial não apenas do ponto de vista do respeito pelos compromissos eleitorais do PCP, mas também para frustrar uma provável manobra da direita no sentido de vir a responsabilizar «a esquerda» e, portanto, também o PCP, pelo fracasso do Governo PS), o PCP nunca hesitou em se associar e concorrer, muitas vezes com os votos dos seus deputados, para a aprovação de medidas pontualmente positivas propostas pelo Governo ou pelo Grupo Parlamentar do PS, como foi o caso recente do Projecto de Lei sobre a IVG.
O Comité Central considera oportuno recordar que, como foi sublinhado no XV Congresso do PCP, e é sublinhado pelos factos, o que melhor define a atitude do PCP na sociedade portuguesa é, aos mais variados níveis de intervenção, o seu profundo empenho construtivo na solução dos problemas do povo e do País, a incomparável generosidade e dedicação que coloca ao serviço dos interesses populares, o seu rico património de luta e reflexão sobre as grandes questões e problemas da sociedade portuguesa, a constante contribuição dos seus militantes para o fortalecimento das organizações sociais, a obra valiosa que há vinte e dois anos realiza no poder local, a sua qualificada intervenção no Parlamento Europeu e na Assembleia da República, bastando lembrar a este respeito que, em sucessivas legislaturas, é quase sempre o PCP quem, com um relativamente diminuto número de deputados, apresenta um maior número de iniciativas legislativas, visando dar resposta a sentidos anseios e preocupações dos portugueses.
2. A construção de uma alternativa é reconhecidamente um processo exigente e complexo. Exigirá uma sensível alteração da actual correlação de forças sociais e políticas.
No abrir de caminhos para a alternativa continuam a pesar como factores incontornáveis, a força e amplitude dos movimentos e lutas sociais e o acerto e intensidade da intervenção política do PCP, na resposta aos problemas actuais da sociedade portuguesa, à política do Governo, aos posicionamentos dos restantes partidos.
É nesse sentido que o Comité Central apela à intensificação dos movimentos e lutas dos trabalhadores e das massas populares, em torno de problemas que quotidianamente os afectam, na exigência de uma nova política, como factor determinante para resistir à política de direita, alcançar a satisfação das reivindicações e abrir caminho a uma alternativa. O movimento sindical unitário, as comissões de trabalhadores, as associações de agricultores, de intelectuais, de estudantes, as colectividades e outras estruturas associativas e organizações sociais desempenham, neste processo, um papel fundamental.
Simultaneamente, o Comité Central considera da maior importância proceder a um aprofundado exame da situação social, da intervenção nas presentes circunstâncias dos diversos movimentos sociais e dos problemas das organizações que os suportam, das perspectivas que se abrem ao desenvolvimento das lutas de massas, e das orientações e da actividade dos comunistas que intervêm nesta esfera. Em conformidade, decide dedicar uma futura reunião a esses objectivos.
3. No contexto da actual situação política, e representando tarefas políticas de grande importância no ano em curso, o Comité Central destaca a necessidade da intensificação da luta por objectivos concretos e imediatos, e contra decisões e projectos particularmente gravosos anunciados pelo Governo.
Assim, é essencial o desenvolvimento da luta dos trabalhadores por aumentos salariais dignos, pelas 40 horas, em defesa da contratação colectiva, contra os despedimentos e a precarização das relações laborais, contra perigosas alterações da legislação de trabalho; dos estudantes e de docentes, contra a lei do financiamento do ensino superior público; dos professores, pais e estudantes, contra a imposição de uma lógica empresarial que põe em risco as escolas públicas do ensino básico e secundário e em defesa da sua direcção e gestão democráticas; das mulheres, contra discriminações e pela concretização da igualdade em todas as esferas da vida; dos reformados, pela melhoria das pensões, nomeadamente pela elevação significativa das mais degradadas; das populações, pela exigência de medidas efectivas de combate à toxicodependência, ao tráfico de droga e ao branqueamento de capitais; e sublinha a urgência de se ampliar a oposição popular às privatizações, designadamente de empresas prestadoras de serviços públicos essenciais, e aos escandalosos aumentos de preços que estão a induzir.
A curtíssimo prazo, será necessário travar uma árdua batalha contra os projectos do PS e do PSD de alterarem, em sentido antidemocrático, a legislação eleitoral, designadamente a respeitante às eleições legislativas, de modo a imporem a criação de círculos uninominais, cujo único real objectivo é o de pressionarem os eleitores no sentido da concentração de votos apenas no PS e no PSD, procurando diminuir a votação e a representação parlamentar do PCP.
O Comité Central, sublinhando a vantagem em que, vencendo as manobras dilatórias do PS, fique finalmente aprovada e entre em vigor a lei da criação das Regiões Administrativas no continente, considera, entretanto, indispensável que se alargue a consciência de que é por exclusiva responsabilidade do PS que, com alta probabilidade, poderá estar comprometida a concretização desta importante reforma democrática na presente legislatura. Com efeito, primeiro ao ligar a regionalização ao processo de revisão constitucional, depois ao ceder ao PSD na exigência de um referendo sobre uma reforma que está há 22 anos consagrada na Constituição, de seguida ao fazer depender o referendo da actualização dos cadernos eleitorais, por via da absurda e ilegítima exigência de participação de 50% dos eleitores no referendo sobre a regionalização - todos os comportamentos e atitudes essenciais do PS têm sido no sentido de complicar e inviabilizar, na prática, o processo de criação das regiões administrativas. É, assim, inteiramente legítimo reafirmar a prevenção há muito feita pelo PCP de que o núcleo mais responsável da direcção do PS há muito tempo que desistiu desta reforma, e de que, nesta matéria, todos os esforços do PS estão concentrados apenas em encontrar um bode expiatório, ou em responsabilizar outros, pelo incumprimento desta sua destacada promessa eleitoral.
Em matéria de integração europeia, o Comité Central declara ser completamente inaceitável pelo nosso País o conteúdo da chamada Agenda 2000, que visa estabelecer o enquadramento político-financeiro do alargamento aos países do Leste da Europa. Pelos limites ao crescimento da despesa comunitária que estabelece, pela proposta de reforma dos fundos estruturais que contém, incluindo a exclusão da Região de Lisboa e Vale do Tejo do objectivo 1, e pelas reformas da Política Agrícola Comum (PAC) e da Política Comum das Pescas que propõe, a Agenda 2000 significará, segundo estudos de insuspeitas instituições, que Portugal será, com o alargamento, o mais prejudicado dos actuais membros da União Europeia.
O Comité Central chama a atenção para que, quanto à adesão de Portugal à moeda única, toda a estratégia do Governo se baseia na sua apresentação como um facto consumado, ideia que as anunciadas campanhas de propaganda, em preparação a nível nacional e comunitário, procurarão consolidar ainda mais fortemente, como forma de impedir o debate alargado das suas reais consequências e travar o avanço das reservas e da oposição que um tal passo já hoje suscita em largos sectores da opinião pública nacional.
É, entretanto, indispensável ampliar a denúncia e o desmascaramento do «referendo-fraude» que o PS e PSD anunciam sobre «matéria europeia» (ao proporem uma pergunta destituída de qualquer eficácia e desonestamente redigida para obter um «sim» esmagador), e prosseguir a exigência de um referendo em que o povo português se possa pronunciar sobre as questões mais relevantes que, de facto, estão em causa - designadamente a participação de Portugal na moeda única e a sua sujeição ao Pacto de Estabilidade.
O PCP considera, entretanto, completamente inaceitável qualquer ideia de realização de dois referendos na mesma data (designadamente sobre regionalização e matéria europeia), como pretendem o PS e o PSD - numa demonstração clara de que não estão interessados em garantir condições de clareza e seriedade ao exercício da soberania popular.
Como tarefa política especialmente urgente, o Comité Central salienta a importância de, com confiança, se desenvolver um vasto movimento de opinião democrática, no sentido de exigir a votação final da lei aprovada pela Assembleia da República em 4 de Fevereiro, despenalizando a interrupção voluntária da gravidez em certas condições, e denunciar a vergonhosa combinação feita entre a direcção do PS e o PSD para a realização de um futuro referendo sobre este tema, combinação cujo único resultado prático imediato seria o de paralisar a aprovação final da lei, defraudando as expectativas legitimamente criadas de um avanço positivo na solução de um grave problema que afecta as mulheres portuguesas, e desprestigiando, de forma ostensiva, a própria Assembleia da República.
Finalmente, condenando o seguidismo do Governo face aos EUA, o PCP prosseguirá a luta contra oenvolvimento de Portugal na escalada agressiva contra o Iraque, apelando ao desenvolvimento de um diversificado movimento de oposição e protesto.
4. O Comité Central procedeu a uma primeira abordagem das linhas gerais do plano de trabalho e calendário de iniciativas do Partido em 1998, as quais perspectivam uma intensa e diversificada intervenção do PCP.
Desse conjunto, o Comité Central chama a atenção, pela sua importância, para as múltiplas iniciativas de comemoração do 77º aniversário do Partido (com destaque para o comício a realizar no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, a 7 de Março), para as iniciativas sobre o significado dos 150 anos do Manifesto Comunista e para a já anunciada realização da Festa do «Avante!», a 4, 5 e 6 de Setembro.
O Comité Central sublinha a especial importância de as comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maioconstituírem uma forte afirmação dos ideais e valores progressistas e da luta pelos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo português.
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No ano em que se completam 150 anos sobre a publicação do Manifesto do Partido Comunista - documento marcante de uma nova perspectiva revolucionária de transformação social e de libertação humana e impulsionador de um grande movimento de ideias, de combates e de lutas da classe operária, dos trabalhadores e dos partidos comunistas que mudou o rumo da história da humanidade - o PCP, convicto da força, da grandeza e da vitalidade dos seus valores e ideais, aberto para a vida e para o futuro, empenhado em afirmar, enriquecer e projectar a sua identidade e o seu projecto de democracia e socialismo para Portugal, tudo fará para continuar a honrar, e cumprir ainda melhor, as suas responsabilidades nacionais e internacionalistas de grande força da liberdade, da democracia e do progresso social, aos serviço dos trabalhadores, do povo e do País.
22 de janeiro de 2013
Etiano Branco sobre a sua vida
A Minha História de Vida
A infância
Nasci “de passagem” em São Tomé e Príncipe. Fui levado pelos meus pais com seis meses de idade para Angola, onde, foi-me dito mais tarde, o meu pai se tornou um dos grandes especialistas na produção de café, tendo trabalhado, como “capataz”, em algumas das principais fazendas do Norte de Angola, mais precisamente na Província do Uíge, até se tornar proprietário da sua própria fazenda, a que deu o nome da minha avó paterna, Laura, situada algures entre Quitexe e Vila Nova de Caipemba.
Dos anos mais recuados da minha infância, guardo memórias dispersas de uma vida serena e feliz, entre brincadeiras nos capinzais e florestas, a subida às árvores para colher sumarentos frutos (mangas, goiabas…) e uma total ausência de medo face aos animais e animaizinhos que por ali partilhavam o espaço comigo e eventuais amigos. Também recordo algumas vivências ternurentas com a minha irmã, três anos mais velha do que eu (dado que a qualidade de menina não aconselhava muito a sua permanências naquelas terras inóspitas, o meu pai enviou-a alguns anos depois para a “metrópole”, para ser educada pela minha avó Laura, em Vila Nova de Foz-Côa; ela nunca perdoou tal facto ao meu pai, mas essa é outra história…).
Chegado o momento de começar a aprender as “letras”, fui remetido para Luanda, onde me inscreveram num colégio para fazer a pré-primária, tendo ficado instalado em casa de um casal amigo dos meus pais. Tinha então cinco anos e acho que me saí bem.
Entretanto, chegou o momento de o meu pai se decidir a avançar com a sua própria fazenda de café, o que fez em sociedade com um seu irmão e meu tio. Este meu tio ficou instalado em Vila Nova de Caipemba, onde também tinha uma loja, e tratava da parte “burocrática” da fazenda (o meu pai era o responsável pelo andamento das coisas no terreno). E foi para casa do meu tio que fui recambiado após terminar a pré-primária.
Caipemba era uma vila relativamente recente e apenas nesse ano estava a ser construída a escola primária. Mas já havia sido contratada uma professora, que começou por me dar aulas em privado até a escola ser inaugurada, uns meses depois.
A frequência da escola primária foi estimulante. Tive a vantagem de o meu tio ser um leitor compulsivo e ter muitos livros em casa, embora ele não se preocupasse muito em “orientar” as minhas leituras. Assim eu comecei muito cedo a ler tudo o que apanhava, desde a Bíblia até livros policiais, o que naturalmente fez com que me distinguisse com alguma facilidade na escola, onde fui sempre o melhor aluno, tendo terminado a 4ª classe e feito o exame de admissão ao Liceu com “brilhantismo”, como me recordo de a minha professora primária (de cujo nome, curiosamente, me esqueci) ter classificado o “feito”.
Entrei então para o Liceu e lá fui outra vez para Luanda, desta vez para casa de uns primos afastados da parte da minha mãe.
E foi quando o “meu” mundo se desmoronou.
Em 11 de Março de 1961, um movimento nacionalista denominado União dos Povos de Angola (UPA, que posteriormente alterou a designação para Frente Nacional para a Libertação de Angola – FNLA) desencadeou os massacres que estiveram na génese da guerra colonial.
Não me vou deter muito neste ponto porque os factos são conhecidos e porque, ainda hoje, é-me um tanto doloroso falar no assunto. Os meus pais e os seus empregados foram chacinados na fazenda. Acontece que eu estava de férias da Páscoa mas, ao contrário do que havia sucedido noutros anos, não fui passar as férias na fazenda e fiquei em casa do meu tio, em Caipemba. Só por isso sobrevivi, mas, ainda assim, vi demasiadas coisas que uma criança de 11 anos de idade não deveria ver, de todo. A vila esteve cercada pelos “terroristas” durante dois dias, até chegar uma força militar oriunda de Carmona (hoje Uíge) que repôs a “ordem” (igualmente com recurso a alguns massacres) e tratou da retirada das mulheres e crianças, em camioneta, para o Negage, onde havia um aeroporto militar, e depois para Luanda, de avião (foi o meu baptismo de voo). O meu tio ficou e nunca mais o vi.
Em Luanda, fui acolhido num centro de refugiados. Posteriormente, a Cruz Vermelha Portuguesa interessou-se pelo meu “caso” e optou pelo meu internamento na Casa Pia de Lisboa (Colégio Pina Manique).
Assim, um belo dia de Janeiro de 1962, fui entregue a uma hospedeira de bordo no aeroporto de Luanda (onde estariam uns 30 graus centígrados de temperatura) e umas horas depois chegava a Lisboa (onde estariam para aí uns 5 graus centígrados). E eu com o meu “fatinho-da-comunhão”, sem forro. Tive tanto frio que até as unhas dos pés batiam palmas… Ainda hoje me recordo de uma sopa que me deram quando cheguei à delegação da Cruz Vermelha Portuguesa (em frente ao Jardim Zoológico). Mas não me recordo do sabor da sopa, e sim que era… quente!
A adolescência
Os primeiros tempos no Colégio Pina Manique foram terríveis. Além do frio a que não estava habituado (nascera em pleno Equador e vivera até aos 11 anos num dos territórios mais quentes e húmidos de África), não sendo propriamente um “menino rico”, poderia dizer-se que tivera até então uma existência confortável e, de certo modo, protegida. De repente, tudo era diferente, desde a comida aos hábitos e… capacidade de sobrevivência.
Ainda me recordo do ar espantado do preceptor quando, a meio da tarde do primeiro dia, lhe perguntei com o ar mais cândido: “A que horas é o lanche?”. Lanche? (eh eh eh).
Assim como me lembro de haver um “ritual” no refeitório a que levei algum tempo a adaptar-me: as mesas eram de seis alunos, sempre os mesmos durante um ano lectivo, se bem recordo; para que não houvesse confusões, em cada refeição um dos alunos era o primeiro a servir-se, da sopa, conduto e fruta - e ia rodando até dar a volta à mesa, sucessivamente; ora bem, nas primeiras refeições em que participei, como “bem educadinho” que era, quando me calhava ser o primeiro a escolher, escolhia a posta de peixe mais pequena ou a fruta com ar menos apetitoso (na convicção de que os outros fariam o mesmo quando fosse a vez deles); está-se mesmo a ver que rapidamente me apercebi de que ficava sempre com o pior bocado, fosse o primeiro ou o último a escolher. E, naturalmente, aprendi uma regra de sobrevivência…
Tive muita dificuldade em adaptar-me ao clima (invariavelmente ia parar à Enfermaria em Dezembro - como nasci a 23 de Dezembro, os aniversários eram sempre passados na cama, de tal maneira que acabei por ser de algum modo “adoptado” pela enfermeira, que me levava sempre umas guloseimas aniversariantes).
Mas lá acabei por adaptar-me e os anos passaram. Tirei o Curso Geral de Comércio, vertente esteno-dactilografia. Já nessa altura pensava que gostaria de ser jornalista, pelo que me parecia ser o único curso dos então disponíveis em Pina Manique que se adaptava de algum modo a essa pretensão (também havia Tipografia, mas a minha falta de jeito em trabalhos “manuais” desaconselhou-me essa via).
Fui um aluno mediano. Apenas me destacava em Português, que terminei com média de 17. Olhando à distância, julgo que poderia ter sido muito melhor aluno, mas faltavam-me estímulos. Recordo, por exemplo, um episódio: um dia o professor de Cálculo Comercial passou-me uma descompostura durante a aula, chamando-me preguiçoso e outras coisas mais; fiquei furioso e decidi dar-lhe a resposta; agarrei-me aos livros e nas semanas seguintes fiz exercícios e mais exercícios; no teste seguinte, o meu teste estava perfeito, tudo certo, era para 20; no dia da distribuição de resultados, o professor olhou para mim e disse que não acreditava que não tivesse copiado; e deu-me 10, por especial deferência... Claro que nunca mais me preocupei com aquela disciplina (ou, por outra, preocupei-me o suficiente para passar…).
Fora das aulas fui um razoável praticante de desporto. Joguei andebol nos torneios inter-escolas e futebol no Casa Pia Atlético Clube (apenas nos juvenis, porque entretanto surgiram outros interesses e deixei o futebol).
Um dos interesses era a leitura. Fui eu que desencadeei o embrião de uma biblioteca que, espero, tenha frutificado em Pina Manique. Aproveitando as aulas práticas de dactilografia, lembrei-me de escrever para todas as editoras a solicitar a doação de livros. Não esperava tão boa reacção. Chegaram caixotes e caixotes de livros.
Terminado o curso, dado que não tinha qualquer familiar em Lisboa (como já disse, a minha irmã estava em Vila Nova de Foz-Côa, com a minha avó paterna; também por ali estavam mais duas tias paternas e alguns primos, mas, sem querer ser demasiado cruel, diria que era gente mazinha, excepção feita à minha irmã, claro) fui para o Lar de Stº António, entretanto criado exactamente para apoiar o pessoal que saía de Pina Manique e não tinha para onde ir.
Concorri e entrei para o meu primeiro emprego, como escriturário, na então Federação Nacional dos Produtores de Trigo (posteriormente EPAC).
Comecei então a descobrir algumas das boas coisinhas da vida que tinham estado até então um bocado desavindas (o namoro, por exemplo). E comecei a desenvolver alguma consciência política. Lentamente, percebi que as circunstâncias do que me tinha acontecido em Angola eram bem mais complexas do que julgara. E desatei a ler. Muito. E a conviver. Foram tempos agradáveis.
A tropa
E chegou o momento de ingressar no Serviço Militar Obrigatório. Com a consciência política recém-adquirida, cheguei a ponderar a deserção. Por um lado, apesar do trauma que me fora infligido em Angola, ganhara consciência de quão disparatada era a Guerra Colonial; por outro lado, precisamente pelos acontecimentos que presenciara, não tinha muito bem a certeza de como reagiria se confrontado com a guerra propriamente dita (de arma na mão).
Ponderados os prós e os contras, decidi avançar e lá me apresentei ao serviço militar. Felizmente, por mero acaso, já que não tinha “cunhas”, fui parar a uma “especialidade”, digamos, anódina (para o caso): Administração Militar. Uma maravilha.
Após os trâmites habituais (recruta, especialidade), fui mobilizado, em rendição individual, para Moçambique, com destino ao Quartel-General, em Nampula.
Lá embarquei no navio Infante D. Henrique e, dado que se tratava de uma “rendição individual”, viajei como qualquer passageiro (sem as chatices da “tropa”). Foi magnífica a viagem (daria para um capítulo à parte).
Melhor ainda: chegado a Lourenço Marques (hoje Maputo), dado que um camarada estava já há dois meses à espera do substituto que nunca mais chegava (vim a saber mais tarde que o presumível substituto era filho de um general, que “bloqueara” a sua ida para Moçambique), fui sumariamente “requisitado” para ficar no Batalhão de Intendência de Lourenço Marques, onde passei dois simpáticos anos de férias sem dar um tiro numa guerra que não me agradava de todo. Nada mau.
E depois…
Quando se aproximava o final da minha “comissão de serviço” em Moçambique, comecei a matutar: “O que raio vou fazer para a Metrópole? Não tenho lá nada de apelativo (a não ser a minha irmã, mas, enfim, lá seguirá o seu caminho, e uma namorada que entretanto seguira outros caminhos – tal como eu, aliás)”.
E foi então que ponderei num facto: havia duas tias (irmãs da minha mãe) que tinham ficado em Angola (também eram naturais de São Tomé e Príncipe e, dado serem mais novas, foram “chamadas” pela minha mãe para Angola, onde construíram a sua vivência). Pensei então que se calhar não era má ideia regressar a Angola, pelo menos para ver como paravam as coisas. E assim foi: fiz um requerimento ao Chefe do Estado-Maior e, em vez de vir “passar à disponibilidade” na Metrópole, fui de Moçambique para Angola e disse adeus à tropa no Quartel do Grafanil, em Viana (arredores de Luanda).
Uma das minhas tias residia então em Salazar (hoje N’Dalatando, capital da província do Kuanza Norte) e foi para aí que me dirigi.
Estávamos no ano de 1973 e ali me fixei, tornando-me trabalhador bancário (Banco Comercial de Angola).
E deu-se o 25 de Abril de 1974.
Tempos conturbados
O 25 de Abril apanhou-me um bocadinho “desprevenido”. Apesar de razoavelmente politizado, talvez porque ao tempo não partidariamente empenhado, não entrevi o acontecimento. Mas aconteceu.
E as coisas complicaram-se. Salazar (hoje N’Dalatando) viveu o chamado “período de transição” como muitas outras localidades angolanas. Foi palco de dois violentos confrontos, em períodos distintos, em que, no primeiro, a FNLA saiu “vitoriosa”, remetendo o MPLA para “o mato” (ou longínqua periferia da cidade) e, no segundo e definitivo, o MPLA “varreu” a FNLA do terreno (a UNITA, por ali, limitava-se a fazer figura de corpo presente).
Vivi, mais uma vez, momentos inolvidáveis. Mas também essas são outras histórias.
Chegou-se a uma situação em que era completamente impossível a cidade continuar a funcionar como espaço convivial. E uma coluna de carros civis, enquadrada por viaturas militares portuguesas (da Metrópole), partiu para Luanda com toda a população (branca, mestiça) de Salazar (hoje N’Dalatando).
E assim voltei mais uma vez a Luanda. Onde fiquei durante alguns meses.
Os meus tios e primos vieram para a Metrópole na “ponte aérea dos retornados”, mas eu decidi ficar para ver como evoluía a situação.
Fui ficando, sempre como funcionário do Banco Comercial de Angola, vivendo aqueles momentos exaltantes de descoberta da “democracia”, até que uma bela noite, numa tertúlia de café, em plena discussão sobre as opções e virtualidades políticas, um distinto fulano interrompeu o meu raciocínio dizendo: “Meu caro, não admito que um tipo mais ‘claro’ do que eu me levante a voz!”. Ele era negro e eu sou mestiço (ou mulato).
No dia seguinte, dei o meu carro ao marido da outra minha tia (que foi a única da família que ficou, ainda por mais algum tempo, em Angola), fui para o aeroporto de Luanda, e vim para Lisboa.
Aqui chegado (a Lisboa), reencontrei a minha antiga namorada (que entretanto tivera uma filha e já se divorciara do marido), que me disse com um ar muito sério: “Nunca te perdoarei que te tenhas vindo embora…”. Ela acreditava, muito sinceramente, que o povo angolano, todo ele, precisava da minha ajuda para ser feliz por todo o tempo. Coisas dos tempos mais ou menos revolucionários...
E a vida continua…
Mas quando cheguei, digamos, estava com uma mão à frente e outra atrás. Fui, naturalmente, refugiar-me em casa da minha irmã (aquela mesma que tinha sido “despachada” pelo meu pai para Vila Nova de Foz-Côa e que, entretanto, tinha dado asas à sua vida e se fixara na cidade do Porto, onde se casara e construíra a sua prole, ao tempo apenas uma filha, posteriormente mais dois rapazes).
Por ali deambulei, com um bocado de frio, e fui assistindo à “consolidação” da democracia portuguesa.
Arranjei um emprego, como funcionário administrativo, no Hospital Joaquim Urbano.
Mas se o clima de Lisboa, para quem nasceu em São Tomé e Príncipe, é um pouco agreste, o do Porto, então, deixem-me que vos diga: houve um ano em que, sem exagero, vivi literalmente, durante dois meses seguidinhos, sem interrupção, debaixo da chamada “chuva-molha-tolos” (ou “chuva-molha-otário”, na versão brasileira).
Cansei-me e voltei para Lisboa.
Claro que entretanto (e estas coisas nunca são inocentes), havia uma miúda pelo meio. A minha primeira mulher, a Lena, foi uma coisa boa que me aconteceu. Morreu, vinte anos depois, de cancro do estômago, e foi pena.
Chegado novamente a Lisboa, o meu amigo Orlando César, filho de Orlando Gonçalves (um homem com H grande), deu-me algum apoio e estive uns tempos a trabalhar na tipografia do “Notícias da Amadora”, jornal em que entretanto começara a colaborar também como jornalista.
Juntei entretanto “os trapinhos” com a Lena e, dado que havia sido bancário em Angola, “aproveitei” a hipótese de transferência de quadros e tornei-me bancário na Metrópole. Fui, durante alguns anos, funcionário do então Crédito Predial Português (embora, a bem da verdade, em grande parte do tempo em funções de “defesa dos interesses dos trabalhadores”, designadamente na Comissão de Trabalhadores da instituição).
Mas a banca não era, decididamente, a minha vocação. E ingressei no jornalismo. Primeiro no extinto jornal “O Diário”, conotado partidariamente mas que, ao tempo, exerceu um jornalismo de excelência (ao nível formal e de conteúdo). Passei depois pelo Diário Económico, semanário Expresso, revista Valor e canal de televisão SIC. Foram muitos anos de experiências inolvidáveis.
Entretanto, alguns anos após a morte da minha primeira mulher, “juntei os trapinhos” com a segunda, Ana, com quem actualmente resmungo ternurentamente ao final da noite. Não tive filhos, o que de algum modo lamento, embora, olhando para 11 de Março de 1961, me vá questionando: será que teria valido a pena?
De qualquer modo, posso sempre dizer (citando uma frase muito em voga) que vivi “acima das minhas possibilidades”.
8 de janeiro de 2013
Esperando que Julião Sarmento tenha sentido de humor
Hoje o sapateiro
resolveu tocar rabecão
resolveu tocar rabecão
Tendo esta capa do grande artista plástico Julião Sarmento para a última revista do Expresso sido objecto de delicadas reticências numa página do Facebook, aí anunciei que até eu, que lido mal com o Paint e não tenho CorelDraw, mesmo no estilo minimalista, era capaz de fazer melhor. Aqui fica pois a minha atrevida tentativa, com a complementar explicação para leigos de que as partes referentes ao Paint fazem mesmo parte do projecto de capa. Não sei se me entendem mas é uma tentativa de proceder digamos à "desconstrução" do trabalho dos gráficos exibindo os instrumentos a que recorrem.
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