22 de janeiro de 2013

Etiano Branco sobre a sua vida


A Minha História de Vida

A infância

Nasci “de passagem” em São Tomé e Príncipe. Fui levado pelos meus pais com seis meses de idade para Angola, onde, foi-me dito mais tarde, o meu pai se tornou um dos grandes especialistas na produção de café, tendo trabalhado, como “capataz”, em algumas das principais fazendas do Norte de Angola, mais precisamente na Província do Uíge, até se tornar proprietário da sua própria fazenda, a que deu o nome da minha avó paterna, Laura, situada algures entre Quitexe e Vila Nova de Caipemba.
Dos anos mais recuados da minha infância, guardo memórias dispersas de uma vida serena e feliz, entre brincadeiras nos capinzais e florestas, a subida às árvores para colher sumarentos frutos (mangas, goiabas…) e uma total ausência de medo face aos animais e animaizinhos que por ali partilhavam o espaço comigo e eventuais amigos. Também recordo algumas vivências ternurentas com a minha irmã, três anos mais velha do que eu (dado que a qualidade de menina não aconselhava muito a sua permanências naquelas terras inóspitas, o meu pai enviou-a alguns anos depois para a “metrópole”, para ser educada pela minha avó Laura, em Vila Nova de Foz-Côa; ela nunca perdoou tal facto ao meu pai, mas essa é outra história…).
Chegado o momento de começar a aprender as “letras”, fui remetido para Luanda, onde me inscreveram num colégio para fazer a pré-primária, tendo ficado instalado em casa de um casal amigo dos meus pais. Tinha então cinco anos e acho que me saí bem.
Entretanto, chegou o momento de o meu pai se decidir a avançar com a sua própria fazenda de café, o que fez em sociedade com um seu irmão e meu tio. Este meu tio ficou instalado em Vila Nova de Caipemba, onde também tinha uma loja, e tratava da parte “burocrática” da fazenda (o meu pai era o responsável pelo andamento das coisas no terreno). E foi para casa do meu tio que fui recambiado após terminar a pré-primária.
Caipemba era uma vila relativamente recente e apenas nesse ano estava a ser construída a escola primária. Mas já havia sido contratada uma professora, que começou por me dar aulas em privado até a escola ser inaugurada, uns meses depois.
A frequência da escola primária foi estimulante. Tive a vantagem de o meu tio ser um leitor compulsivo e ter muitos livros em casa, embora ele não se preocupasse muito em “orientar” as minhas leituras. Assim eu comecei muito cedo a ler tudo o que apanhava, desde a Bíblia até livros policiais, o que naturalmente fez com que me distinguisse com alguma facilidade na escola, onde fui sempre o melhor aluno, tendo terminado a 4ª classe e feito o exame de admissão ao Liceu com “brilhantismo”, como me recordo de a minha professora primária (de cujo nome, curiosamente, me esqueci) ter classificado o “feito”.
Entrei então para o Liceu e lá fui outra vez para Luanda, desta vez para casa de uns primos afastados da parte da minha mãe.
E foi quando o “meu” mundo se desmoronou.
Em 11 de Março de 1961, um movimento nacionalista denominado União dos Povos de Angola (UPA, que posteriormente alterou a designação para Frente Nacional para a Libertação de Angola – FNLA) desencadeou os massacres que estiveram na génese da guerra colonial.
Não me vou deter muito neste ponto porque os factos são conhecidos e porque, ainda hoje, é-me um tanto doloroso falar no assunto. Os meus pais e os seus empregados foram chacinados na fazenda. Acontece que eu estava de férias da Páscoa mas, ao contrário do que havia sucedido noutros anos, não fui passar as férias na fazenda e fiquei em casa do meu tio, em Caipemba. Só por isso sobrevivi, mas, ainda assim, vi demasiadas coisas que uma criança de 11 anos de idade não deveria ver, de todo. A vila esteve cercada pelos “terroristas” durante dois dias, até chegar uma força militar oriunda de Carmona (hoje Uíge) que repôs a “ordem” (igualmente com recurso a alguns massacres) e tratou da retirada das mulheres e crianças, em camioneta, para o Negage, onde havia um aeroporto militar, e depois para Luanda, de avião (foi o meu baptismo de voo). O meu tio ficou e nunca mais o vi.
Em Luanda, fui acolhido num centro de refugiados. Posteriormente, a Cruz Vermelha Portuguesa interessou-se pelo meu “caso” e optou pelo meu internamento na Casa Pia de Lisboa (Colégio Pina Manique).
Assim, um belo dia de Janeiro de 1962, fui entregue a uma hospedeira de bordo no aeroporto de Luanda (onde estariam uns 30 graus centígrados de temperatura) e umas horas depois chegava a Lisboa (onde estariam para aí uns 5 graus centígrados). E eu com o meu “fatinho-da-comunhão”, sem forro. Tive tanto frio que até as unhas dos pés batiam palmas… Ainda hoje me recordo de uma sopa que me deram quando cheguei à delegação da Cruz Vermelha Portuguesa (em frente ao Jardim Zoológico). Mas não me recordo do sabor da sopa, e sim que era… quente!

A adolescência

Os primeiros tempos no Colégio Pina Manique foram terríveis. Além do frio a que não estava habituado (nascera em pleno Equador e vivera até aos 11 anos num dos territórios mais quentes e húmidos de África), não sendo propriamente um “menino rico”, poderia dizer-se que tivera até então uma existência confortável e, de certo modo, protegida. De repente, tudo era diferente, desde a comida aos hábitos e… capacidade de sobrevivência.
Ainda me recordo do ar espantado do preceptor quando, a meio da tarde do primeiro dia, lhe perguntei com o ar mais cândido: “A que horas é o lanche?”. Lanche? (eh eh eh).
Assim como me lembro de haver um “ritual” no refeitório a que levei algum tempo a adaptar-me: as mesas eram de seis alunos, sempre os mesmos durante um ano lectivo, se bem recordo; para que não houvesse confusões, em cada refeição um dos alunos era o primeiro a servir-se, da sopa, conduto e fruta - e ia rodando até dar a volta à mesa, sucessivamente; ora bem, nas primeiras refeições em que participei, como “bem educadinho” que era, quando me calhava ser o primeiro a escolher, escolhia a posta de peixe mais pequena ou a fruta com ar menos apetitoso (na convicção de que os outros fariam o mesmo quando fosse a vez deles); está-se mesmo a ver que rapidamente me apercebi de que ficava sempre com o pior bocado, fosse o primeiro ou o último a escolher. E, naturalmente, aprendi uma regra de sobrevivência…
Tive muita dificuldade em adaptar-me ao clima (invariavelmente ia parar à Enfermaria em Dezembro - como nasci a 23 de Dezembro, os aniversários eram sempre passados na cama, de tal maneira que acabei por ser de algum modo “adoptado” pela enfermeira, que me levava sempre umas guloseimas aniversariantes).
Mas lá acabei por adaptar-me e os anos passaram. Tirei o Curso Geral de Comércio, vertente esteno-dactilografia. Já nessa altura pensava que gostaria de ser jornalista, pelo que me parecia ser o único curso dos então disponíveis em Pina Manique que se adaptava de algum modo a essa pretensão (também havia Tipografia, mas a minha falta de jeito em trabalhos “manuais” desaconselhou-me essa via).
Fui um aluno mediano. Apenas me destacava em Português, que terminei com média de 17. Olhando à distância, julgo que poderia ter sido muito melhor aluno, mas faltavam-me estímulos. Recordo, por exemplo, um episódio: um dia o professor de Cálculo Comercial passou-me uma descompostura durante a aula, chamando-me preguiçoso e outras coisas mais; fiquei furioso e decidi dar-lhe a resposta; agarrei-me aos livros e nas semanas seguintes fiz exercícios e mais exercícios; no teste seguinte, o meu teste estava perfeito, tudo certo, era para 20; no dia da distribuição de resultados, o professor olhou para mim e disse que não acreditava que não tivesse copiado; e deu-me 10, por especial deferência... Claro que nunca mais me preocupei com aquela disciplina (ou, por outra, preocupei-me o suficiente para passar…).
Fora das aulas fui um razoável praticante de desporto. Joguei andebol nos torneios inter-escolas e futebol no Casa Pia Atlético Clube (apenas nos juvenis, porque entretanto surgiram outros interesses e deixei o futebol).
Um dos interesses era a leitura. Fui eu que desencadeei o embrião de uma biblioteca que, espero, tenha frutificado em Pina Manique. Aproveitando as aulas práticas de dactilografia, lembrei-me de escrever para todas as editoras a solicitar a doação de livros. Não esperava tão boa reacção. Chegaram caixotes e caixotes de livros.
Terminado o curso, dado que não tinha qualquer familiar em Lisboa (como já disse, a minha irmã estava em Vila Nova de Foz-Côa, com a minha avó paterna; também por ali estavam mais duas tias paternas e alguns primos, mas, sem querer ser demasiado cruel, diria que era gente mazinha, excepção feita à minha irmã, claro) fui para o Lar de Stº António, entretanto criado exactamente para apoiar o pessoal que saía de Pina Manique e não tinha para onde ir.
Concorri e entrei para o meu primeiro emprego, como escriturário, na então Federação Nacional dos Produtores de Trigo (posteriormente EPAC).
Comecei então a descobrir algumas das boas coisinhas da vida que tinham estado até então um bocado desavindas (o namoro, por exemplo). E comecei a desenvolver alguma consciência política. Lentamente, percebi que as circunstâncias do que me tinha acontecido em Angola eram bem mais complexas do que julgara. E desatei a ler. Muito. E a conviver. Foram tempos agradáveis.

A tropa

E chegou o momento de ingressar no Serviço Militar Obrigatório. Com a consciência política recém-adquirida, cheguei a ponderar a deserção. Por um lado, apesar do trauma que me fora infligido em Angola, ganhara consciência de quão disparatada era a Guerra Colonial; por outro lado, precisamente pelos acontecimentos que presenciara, não tinha muito bem a certeza de como reagiria se confrontado com a guerra propriamente dita (de arma na mão).
Ponderados os prós e os contras, decidi avançar e lá me apresentei ao serviço militar. Felizmente, por mero acaso, já que não tinha “cunhas”, fui parar a uma “especialidade”, digamos, anódina (para o caso): Administração Militar. Uma maravilha.
Após os trâmites habituais (recruta, especialidade), fui mobilizado, em rendição individual, para Moçambique, com destino ao Quartel-General, em Nampula.
Lá embarquei no navio Infante D. Henrique e, dado que se tratava de uma “rendição individual”, viajei como qualquer passageiro (sem as chatices da “tropa”). Foi magnífica a viagem (daria para um capítulo à parte).
Melhor ainda: chegado a Lourenço Marques (hoje Maputo), dado que um camarada estava já há dois meses à espera do substituto que nunca mais chegava (vim a saber mais tarde que o presumível substituto era filho de um general, que “bloqueara” a sua ida para Moçambique), fui sumariamente “requisitado” para ficar no Batalhão de Intendência de Lourenço Marques, onde passei dois simpáticos anos de férias sem dar um tiro numa guerra que não me agradava de todo. Nada mau.

E depois…

Quando se aproximava o final da minha “comissão de serviço” em Moçambique, comecei a matutar: “O que raio vou fazer para a Metrópole? Não tenho lá nada de apelativo (a não ser a minha irmã, mas, enfim, lá seguirá o seu caminho, e uma namorada que entretanto seguira outros caminhos – tal como eu, aliás)”.
E foi então que ponderei num facto: havia duas tias (irmãs da minha mãe) que tinham ficado em Angola (também eram naturais de São Tomé e Príncipe e, dado serem mais novas, foram “chamadas” pela minha mãe para Angola, onde construíram a sua vivência). Pensei então que se calhar não era má ideia regressar a Angola, pelo menos para ver como paravam as coisas. E assim foi: fiz um requerimento ao Chefe do Estado-Maior e, em vez de vir “passar à disponibilidade” na Metrópole, fui de Moçambique para Angola e disse adeus à tropa no Quartel do Grafanil, em Viana (arredores de Luanda).
Uma das minhas tias residia então em Salazar (hoje N’Dalatando, capital da província do Kuanza Norte) e foi para aí que me dirigi.
Estávamos no ano de 1973 e ali me fixei, tornando-me trabalhador bancário (Banco Comercial de Angola).
E deu-se o 25 de Abril de 1974.
Tempos conturbados
O 25 de Abril apanhou-me um bocadinho “desprevenido”. Apesar de razoavelmente politizado, talvez porque ao tempo não partidariamente empenhado, não entrevi o acontecimento. Mas aconteceu.
E as coisas complicaram-se. Salazar (hoje N’Dalatando) viveu o chamado “período de transição” como muitas outras localidades angolanas. Foi palco de dois violentos confrontos, em períodos distintos, em que, no primeiro, a FNLA saiu “vitoriosa”, remetendo o MPLA para “o mato” (ou longínqua periferia da cidade) e, no segundo e definitivo, o MPLA “varreu” a FNLA do terreno (a UNITA, por ali, limitava-se a fazer figura de corpo presente).
Vivi, mais uma vez, momentos inolvidáveis. Mas também essas são outras histórias.
Chegou-se a uma situação em que era completamente impossível a cidade continuar a funcionar como espaço convivial. E uma coluna de carros civis, enquadrada por viaturas militares portuguesas (da Metrópole), partiu para Luanda com toda a população (branca, mestiça) de Salazar (hoje N’Dalatando).
E assim voltei mais uma vez a Luanda. Onde fiquei durante alguns meses. 
Os meus tios e primos vieram para a Metrópole na “ponte aérea dos retornados”, mas eu decidi ficar para ver como evoluía a situação.
Fui ficando, sempre como funcionário do Banco Comercial de Angola, vivendo aqueles momentos exaltantes de descoberta da “democracia”, até que uma bela noite, numa tertúlia de café, em plena discussão sobre as opções e virtualidades políticas, um distinto fulano interrompeu o meu raciocínio dizendo: “Meu caro, não admito que um tipo mais ‘claro’ do que eu me levante a voz!”. Ele era negro e eu sou mestiço (ou mulato).
No dia seguinte, dei o meu carro ao marido da outra minha tia (que foi a única da família que ficou, ainda por mais algum tempo, em Angola), fui para o aeroporto de Luanda, e vim para Lisboa.
Aqui chegado (a Lisboa), reencontrei a minha antiga namorada (que entretanto tivera uma filha e já se divorciara do marido), que me disse com um ar muito sério: “Nunca te perdoarei que te tenhas vindo embora…”. Ela acreditava, muito sinceramente, que o povo angolano, todo ele, precisava da minha ajuda para ser feliz por todo o tempo. Coisas dos tempos mais ou menos revolucionários...

E a vida continua…

Mas quando cheguei, digamos, estava com uma mão à frente e outra atrás. Fui, naturalmente, refugiar-me em casa da minha irmã (aquela mesma que tinha sido “despachada” pelo meu pai para Vila Nova de Foz-Côa e que, entretanto, tinha dado asas à sua vida e se fixara na cidade do Porto, onde se casara e construíra a sua prole, ao tempo apenas uma filha, posteriormente mais dois rapazes).
Por ali deambulei, com um bocado de frio, e fui assistindo à “consolidação” da democracia portuguesa.
Arranjei um emprego, como funcionário administrativo, no Hospital Joaquim Urbano.
Mas se o clima de Lisboa, para quem nasceu em São Tomé e Príncipe, é um pouco agreste, o do Porto, então, deixem-me que vos diga: houve um ano em que, sem exagero, vivi literalmente, durante dois meses seguidinhos, sem interrupção, debaixo da chamada “chuva-molha-tolos” (ou “chuva-molha-otário”, na versão brasileira).
Cansei-me e voltei para Lisboa.
Claro que entretanto (e estas coisas nunca são inocentes), havia uma miúda pelo meio. A minha primeira mulher, a Lena, foi uma coisa boa que me aconteceu. Morreu, vinte anos depois, de cancro do estômago, e foi pena.
Chegado novamente a Lisboa, o meu amigo Orlando César, filho de Orlando Gonçalves (um homem com H grande), deu-me algum apoio e estive uns tempos a trabalhar na tipografia do “Notícias da Amadora”, jornal em que entretanto começara a colaborar também como jornalista.
Juntei entretanto “os trapinhos” com a Lena e, dado que havia sido bancário em Angola, “aproveitei” a hipótese de transferência de quadros e tornei-me bancário na Metrópole. Fui, durante alguns anos, funcionário do então Crédito Predial Português (embora, a bem da verdade, em grande parte do tempo em funções de “defesa dos interesses dos trabalhadores”, designadamente na Comissão de Trabalhadores da instituição).
Mas a banca não era, decididamente, a minha vocação. E ingressei no jornalismo. Primeiro no extinto jornal “O Diário”, conotado partidariamente mas que, ao tempo, exerceu um jornalismo de excelência (ao nível formal e de conteúdo). Passei depois pelo Diário Económico, semanário Expresso, revista Valor e canal de televisão SIC. Foram muitos anos de experiências inolvidáveis.
Entretanto, alguns anos após a morte da minha primeira mulher, “juntei os trapinhos” com a segunda, Ana, com quem actualmente resmungo ternurentamente ao final da noite. Não tive filhos, o que de algum modo lamento, embora, olhando para 11 de Março de 1961, me vá questionando: será que teria valido a pena?
De qualquer modo, posso sempre dizer (citando uma frase muito em voga) que vivi “acima das minhas possibilidades”.

8 de janeiro de 2013

Esperando que Julião Sarmento tenha sentido de humor

Hoje o sapateiro
resolveu tocar rabecão



Tendo esta capa do grande artista plástico Julião Sarmento para a última revista do Expresso sido objecto de delicadas reticências numa página do Facebook, aí anunciei que até eu, que lido mal com o Paint e não tenho CorelDraw, mesmo no estilo minimalista,  era capaz de fazer melhor. Aqui fica pois a minha atrevida tentativa, com a complementar explicação para leigos de que as partes referentes ao Paint fazem mesmo parte do projecto de capa. Não sei se me entendem mas é uma tentativa de proceder digamos à "desconstrução" do trabalho dos gráficos exibindo os instrumentos a que recorrem.

21 de agosto de 2012

Manifesto em defesa do serviço público de televisão


A evolução da televisão ao longo das últimas décadas, com a multiplicação da oferta de canais, a passagem ao digital, a perigosa concentração em grandes  grupos de comunicação, com o risco de promiscuidade entre política, negócios e informação, não diminuiu a legitimidade do serviço público na Europa e do 
seu insubstituível contributo para a democratização da sociedade. Pelo 
contrário, na maioria dos países europeus, o serviço público reforçou a sua 
legitimidade: multiplicou a oferta, reforçou a exigência de uma programação 
mais qualificada e atenta à inovação do que a dos seus concorrentes 
comerciais; tornou mais clara a exigência de uma informação isenta e plural; 
as preocupações com a programação cultural ou relacionada com os gostos das 
minorias e com os interesses sociais de reduzida expressão; a salvaguarda de 
programas e canais de limitado interesse comercial, mas importantes para 
toda a sociedade; a certeza de o seu capital ser nacional num quadro 
empresarial cada vez mais preenchido por multinacionais e poderosos 
operadores de telecomunicações; e o seu papel decisivo na indústria 
audiovisual.

De tal forma assim é que em nenhum outro país europeu, exceto em Portugal, o 
governo se propôs enfraquecer o serviço público de televisão, privatizando 
um dos seus canais nacionais. A prova é que a privatização de um canal de 
televisão não figura nem nas exigências da Troika, nem na agenda da União 
Europeia. O serviço público continua a ser considerado, agora mais do que 
nunca no quadro da televisão digital, um eixo estratégico de afirmação da 
língua, da cultura e da identidade de cada Estado, um instrumento da coesão 
social de cada país, através de um operador a quem todos ­ poder e opinião 
pública - reconhecem um insubstituível papel regulador do mercado, garante 
do pluralismo e promotor da diversidade e da qualidade dos conteúdos 
audiovisuais. E a quem os cidadãos sentem que podem pedir contas.

A verdade é que continuam plenamente válidos os sucessivos documentos de 
diversas instâncias europeias, apoiados num consenso de todas as famílias 
políticas da direita à esquerda, que vêm reafirmando que «um amplo acesso do 
público a várias categorias de canais e serviços constitui uma pré-condição 
necessária para o cumprimento das obrigações específicas do serviço p
úblico».

Desta forma, os signatários, provenientes dos mais variados quadrantes 
políticos e ideológicos, exprimem a sua profunda discordância face à 
anunciada privatização de um dos canais da RTP, apelando ao governo e ao 
poder político para que, tal como aconteceu com a prometida privatização da 
agência Lusa, não concretizem essa decisão, cujos contornos têm 
inclusivamente provocado legítimas suspeições sobre a sua transparência.

Entendem também que esta espécie de bomba-relógio que paira sobre a RTP, 
acompanhada do anúncio do desmembramento dos seus meios de produção,
compromete o futuro da empresa e está a prejudicar não apenas a prestação do 
serviço público, como impede o que devia ser sua a prioridade mais urgente: 
uma profunda reflexão sobre a forma de garantir o imperativo constitucional 
de independência face ao poder político e ao poder económico e a reforma a 
empreender na oferta do serviço público no quadro digital, acompanhando os 
modelos dos outros países europeus.

O governo, aliás, tem revelado uma preocupante falta de clareza e de 
coerência nas medidas anunciadas, geralmente avulsas e erráticas, pautadas 
pelo improviso e pelo desconhecimento do que está em jogo. A verdade é que, 
até hoje, o governo já falou de «alienação» e de «privatização», sem que 
ninguém percebesse porquê nem para quê, e muito menos o que se pretende «
alienar» ou «privatizar», nem em que termos.

Além do mais, neste quadro, uma eventual privatização de um canal, sobretudo 
se conjugada com o anunciado fim da publicidade comercial na RTP, não 
representaria nenhuma diminuição dos custos do serviço público, que, de 
resto e ao contrário do que tem sido frequentemente propalado, são dos mais 
baixos da Europa.

Bem pelo contrário, sobretudo no atual contexto de grave crise económica e 
financeira, a presença de um novo operador comercial, certamente com uma 
programação adequada à sua necessidade de maximizar receitas publicitárias, 
teria dramáticas consequências na viabilidade dos restantes operadores do 
sector, bem como em todas as outras empresas de comunicação social e da 
indústria audiovisual, empobrecendo drasticamente a qualidade e a 
diversidade dos media portugueses.

Por outro lado, essa privatização envolveria o fim de muitos dos atuais 
programas da RTP, quer os programas que legitimamente procuram dirigir-se a 
todos os portugueses, quer alguns dos que se destinam aos públicos 
minoritários, que não encontram conteúdos idênticos na restante oferta 
televisiva por não ser essa a vocação dos operadores comerciais - e que, por 
isso, devem ser assegurados por um canal alternativo -, conferindo
legitimidade e um importante papel regulador ao operador público.

Por todas estas razões, os signatários apelam ao bom senso dos partidos do 
governo e da oposição para que travem uma medida que carece de clareza e de 
racionalidade e que não pode em caso nenhum ser enquadrada no plano de 
privatizações, até porque a sua dimensão financeira seria despicienda e 
totalmente desproporcionada relativamente aos efeitos brutais sobre a 
indústria dos média e a qualidade e a isenção da informação, da formação e 
do entretenimento a que os portugueses têm direito.

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Pedro Laginha
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Pedro Lourtie
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geóloga

Rui Ferreira e Sousa
jornalista

Rui Namorado Rosa
professor universitário

Rui Tavares
escritor, jornalista e deputado europeu

Rui Teives Henriques
professor universitário

Rui Teixeira Motta
advogado e membro do Conselho de Opinião da RTP

Rui Vieira Nery
(confirmar)


Sérgio Godinho
cantor

Simonetta Luz Afonso
historiadora e presidente da Assembleia Municipal de Lisboa

Sónia Melo
jornalista

Susana Gato
produtora de televisão


Tiago R. Santos
argumentista

Tiago Torres da Silva
escritor e encenador

Tolentino de Nóbrega
jornalista

Tony Costa
director de fotografia

Tozé Brito
músico

Valdemar Cruz
jornalista

Vasco Lourenço
presidente da Associação 25 de Abril

Viriato Soromenho Marques
filósofo

Virgílio Amaral
professor universitário

Virgílio Castelo
actor

Vítor Bandarra
jornalista

Vítor Ramalho
advogado

Vítor Ribeiro
jornalista

20 de agosto de 2012

O Concerto Promenade de sexta na Festa do Avante!

Texto de Manuel Jorge Veloso


Diversa e multifacetada que é, quanto às ofertas musicais que proporciona a quem a visita, a Festa do “Avante!” tem-se tornado desde há anos, nas noites de sexta-feira e a pretexto da abertura dos espetáculos no Palco 25 de Abril, um local de encontro dos amantes da música erudita e afinal de todos os visitantes que, não o sendo por hábito, nela acabam por descobrir os insondáveis prazeres da audição da Grande Música.

A iniciativa de promover estes concertos radicou sempre, aliás, numa perspectiva político-cultural mais geral que tão-só consiste, por parte da organização da Festa, em tornar as várias modalidades e expressões da cultura e do espetáculo abertas às grandes massas de público que todos os anos frequenta a Quinta da Atalaia, segundo princípios não elitistas e com resultados claramente positivos e transversais em termos de classe, género, idade, experiência e formação profissional ou académica.
Se recordarmos, mesmo genericamente, o que têm sido os conteúdos dessas grandes noites musicais, concluiremos que, pelo Palco 25 de Abril, têm passado peças sinfónicas ou de câmara; obras orquestrais e concertos para instrumentos solistas; aberturas, intermezzi e árias de ópera; música “pura” ou música “funcional”, ou seja, composta em função de outras artes performativas; e até música “programática”, tendo portanto como móbil a inspiração provocada por um determinado acontecimento histórico ou a passagem de uma dada efeméride com peso de referência.
É assim naturalíssimo que, por maioria de razões, tenha chegado à altura de escolhermos como mote e mesmo como título para o nosso concerto anual a “chancela” dos famosos Concertos Promenade, os velhos Proms, tal como ficaram conhecidos os concertos que anualmente a BBC, serviço público de rádio e televisão britânico, organiza predominantemente no Royal Albert Hall de Londres.
Chamados de Promenade porque evocando os eventos musicais realizados ao ar livre, desde meados do século XVIII, nos grandes recintos públicos e parques citadinos, estes Concertos tornaram-se um acontecimento maior da programação da BBC a partir de 1927 e, depois de uma interrupção provocada pelos primeiros anos da II Grande Guerra, novamente a partir de 1942, agora no interior de amplas salas de concerto mas ainda e sempre proporcionando ao público um ambiente muito descontraído, quantas vezes sublinhando este com a sua espontaneidade e intervenção colectiva certas passagens de peças famosas e de conhecimento geral.
Nada que não conheçamos já, de uma outra forma, da nossa própria Festa!
É esse mesmo espírito de fruição informal mas atenta, tão próprio da vasta plateia ao ar livre frontal ao Palco 25 de Abril, que de novo caracterizará o concerto de arranque da Festa, até porque as nossas escolhas foram desta vez dirigidas para um repertório bem conhecido e de grande êxito popular. (ver caixa)
De regresso à Festa, estará a Sinfonietta de Lisboa, dirigida por Vasco Pearce de Azevedo, estando também em plano de destaque três jovens e talentosos solistas portugueses: Sérgio Pacheco (trompete), Ana Cristina Fernandes Pereira (violino) e Inês Andrade (piano).

alinhamento do espectáculo




9 de agosto de 2012

22 de maio de 2012

Em torno do conceito de produtividade


por Daniel Vaz de Carvalho,
Engenheiro electrotécnico. Gestor
no Boletim da Confederação
dos Quadros Técnicos



1
Dadas as intenções do actual governo de impor leis iníquas que configuram despedimentos arbitrários sob o
sofisma da “produtividade” pensamos ser oportuno o tratamento deste tema.
Assim, com o argumento da “produtividade” e da “competitividade”, seria causa para despedimento os “casos em que o trabalhador tenha acordado com o empregador determinados objectivos e não os cumpra”. Este texto configura por um lado má fé, por outro, indigência mental.
Trata-se de um sofisma de contornos ideológicos – reaccionários – sem qualquer base técnica como demostraremos.
Vejamos.
A primeira evidência é a seguinte: a produtividade por pessoa para o total da economia corresponde em Portugal a 77,3% da média da UE 27 (dados Eurostat – 2010). Porém, o salário nominal médio por trabalhador, também para o total da economia era 59,2% da média da UE 27 (Comissão Europeia, base de dados AMECO,2011).
As razões das falta de competitividade têm, pois de ser procuradas não nas leis laborais ou nos salários, mas em
erradas políticas e estratégias económicas dos sucessivos governos.
Acerca do cumprimento de objetivos individuais repare-se que a desigualdade de posições entre as duas partes (empregador e empregado) torna ridículo falar em acordos ou negociação. O lado empresarial poderá sempre impor com ou sem argumentos o que melhor lhe parecer.
A concorrência e a crise servem para tudo.
Além disto, basta transpor objectivos porventura irrealistas dadas as condições de trabalho, que a empresa tenha assumido com terceiros. O executante poderá então ser penalizado! Absurdo.
Ora, excetuando os casos de micro e em parte pequenas empresas, em que o contexto laboral e as próprias relações humanas são bastante diferentes, o trabalho – salvo raras exceções – é sempre trabalho de equipa.
Em termos de gestão, não faz sentido falar em objectivos individuais. Em comportamento individual, sim, mas não em objectivos.
Aliás, para que isto fique claro, podemos considerar que cada trabalhador poderá sempre argumentar que a montante não lhe foram dadas condições para cumprir os objectivos! Uma miríade de possíveis razões que veremos em parte analisadas na continuação, ao tratarmos do que é e em que consiste a produtividade. Isto, sem falar das utilizadas pelas empresas, nomeadamente para não cumprirem objectivos contratuais e não pagarem penalidades…
No passado, foi consensual que a acção sindical em muito contribuiu para o desenvolvimento económico e o progresso social dos países mais evoluídos. Pelo contrário, o que se pretende agora verter em lei mostra indisfarçável repulsa pela intervenção sindical - considerada nefasta pela actual coligação. Tudo isto são sintomas do processo de acelerada decadência económica e social que a UE atingiu.
Com uma lei desta natureza (de orientações objectivamente neofascistas) é cada vez mais relativo falar-se em democracia e em Estado de direito no nosso país. Na formal democracia vigente seria legalmente instaurada a ditadura ao nível das empresas.
2
A produtividade é um factor decisivo do desenvolvimento económico. A produtividade representa a produção em unidades físicas por trabalhador (produtividade aparente) ou por hora de trabalho (trabalho presente). Falar em “produtividade do capital” é uma deformação sem consistência teórica, do que se está a falar é de taxa de lucro ou de renda.
A produtividade é contudo uma grandeza que cuja variação se processa de forma lenta: razão para ser objecto de continuados e persistentes esforços para a sua melhoria.
Em lugar de promover políticas consistentes de aumento da produtividade, os sucessivos governos, alinhando com os dogmas neoliberais, pretendem alcançar mais competitividade prosseguido na via da deflação salarial (leis laborais retrógradas, abaixamento do salário real) em função da sujeição aos “mercados”.
Quando se fala em mercados, entenda-se que se trata dos interesses oligopolistas e transnacionais. A vida mostra que é o caminho da recessão e do desastre económico, mas nada mais encaixa naquelas cabeças.
A produtividade, duma empresa depende de um complexo de factores interligados, externos e internos à empresa.
No que diz respeito aos primeiros, salientamos a necessidade de planeamento económico a nível nacional e de apoios financeiros, tecnológicos e de gestão por parte do Estado às empresas que contribuam para o aumento da
produção nacional e cumprimento dos objectivos de um plano económico democrático, muito particularmente as PME. A criação de um ambiente propício ao aumento da produtividade implica a expansão do mercado interno, pelo aumento do nível de vida dos trabalhadores bem como políticas visando a produção de produtos importados, o que também permite o aumento quantitativo e qualitativo das exportações.
São, factores externos de improdutividade o não aproveitamento total das capacidades produtivas por redução da procura, o clima de estagnação ou recessão, seja geral seja sectorial, a redução do investimento – em particular o público alavancando o desenvolvimento económico, a falta de planeamento e coordenação económica, as dificuldades no crédito.
Os preços de monopólio das grandes empresas do sector energético, telecomunicações, etc., não estando directamente ligadas à produtividade, condicionam a competitividade, a capacidade de investimento e desenvolvimento das demais.
Constituem uma extracção da mais valia gerada nas MPME e uma captação do rendimento disponível de todos os trabalhadores ou pensionistas enquanto consumidores.
Outro aspecto que deve ser salientado é a burocracia de um aparelho de Estado alheado do incremento e defesa da produção nacional, muitas vezes mais voltado para a subordinação acrítica às regras da UE, com o complexo subserviente e acéfalo do “bom aluno”.
Serviu-lhes de muito…
Quanto aos factores internos, consideremos que o tempo de trabalho se pode decompor-se em tempo básico e tempo improdutivo. tempo básico é o tempo dispendido se o trabalho se realizasse de forma perfeita a um ritmo normal de actividade, incluindo tempos de descanso necessários à recuperação da fadiga e tempos de preparação do trabalho sem erros. É o limite que deve procurar atingir-se considerando determinados meios de trabalho. Pode portanto reduzir-se melhorando o nível tecnológico dos equipamentos disponíveis e os processos
produtivos utilizados.
O tempo improdutivo é o tempo dispendido para além do conteúdo básico do trabalho e pode resultar de excesso de trabalho ou de tempos de paragem. Do ponto de vista material o tempo improdutivo tem origem em deficiências dos materiais em deficiências do processo de trabalho.
De um ponto de vista, digamos, imaterial pode ser imputável à gestão ou imputável ao trabalhador.
A produtividade significa tecnologia e inovação, mas também organização e motivação, sem o que os primeiros não se concretizam de todo ou apenas de forma deficiente.
Se os diversos níveis de gestão e os executantes não estiverem devidamente informados e mobilizados para estas
questões ocorrem tempos improdutivos por mau planeamento; falta de coordenação e preparação do trabalho, falhas no fornecimento de material, deficiente manutenção dos equipamentos e ferramentas, enfim, ritmo mais lento que o estipulado devido à falta de preparação e controlo do trabalho, falta de segurança, ausência de objectivos quantificados e documentados. Todos estes aspectos são em última análise de responsabilidade da gestão da empresa que deve ter em conta o conjunto de variáveis e condicionantes que influem sobre a organização e a melhoria da produtividade.
Compete também à gestão proporcionar adequada formação e motivação dos trabalhadores, elementos fundamentais (condição sine qua non), do aumento de produtividade.
Numa empresa motivada para o aumento da produtividade desenvolvem-se valores comuns, estimula-se a progressão nas carreiras, estabelecem-se formas de recompensa, partilham-se os resultados obtidos. Há amizades pessoais, objectivos e projectos comuns.
O pessoal a todos os níveis tem adequada formação, está informado e motivado moral e materialmente, para os objectivos a alcançar.
No pólo oposto encontramos os factores que tornam uma empresa improdutiva.
Encontramos pessoal indeciso e frustrado, vivendo na insegurança quanto ao futuro. A motivação é feita pela negativa pelo receio do despedimento, há falta de interacção entre as necessidades pessoais e as da empresa, as responsabilidades são dissipadas no ambiente de crise e instabilidade. A gestão longe de desenvolver e aproveitar a capacidade criadora dos trabalhadores e os escutar considera-os meros executantes e seres descartáveis.
Os actuais estrategas governamentais e seus próceres consideram no entanto que os despedimentos arbitrários são um factor decisivo no aumento da produtividade – daí o que se pretende pôr em lei. Ora, mostra e experiência que a parte imputável ao trabalhador nas situações de improdutividade não ultrapassa os 10 a 15% do total. Veremos como e porquê.
3
Dizia Miguel Ângelo que fazer uma estátua era simples, bastava tirar à pedra o que estava a mais…O aumento de produtividade é tão simples quanto isto: basta eliminar os factores de improdutividade.
Mesmo em condições tecnológicas idênticas as produtividades podem ser muito diferentes de empresa para empresa, de país para país. Os aspectos organizativos e de gestão são fundamentais.
A responsabilidade do trabalhador na improdutividade pode dever-se a falta de competência ou a indisciplina. Em última análise, no entanto, a responsabilidade será sempre da gestão. No primeiro caso, cabe à gestão, proceder à formação e qualificação dos trabalhadores para os trabalhos em causa, à respectiva
avaliação de conhecimentos e selecção dos trabalhadores para as diversas tarefas. No segundo caso, indisciplina, mostra a experiência que a existência de um bom ambiente de trabalho e de motivação permite na generalidade
dos casos serem os próprios colegas a censurar e a procurar corrigir o trabalhador. Diga-se que este aspecto nunca esteve em causa na legislação pós-25 de Abril. Um gestor ou um quadro técnico que argumente desta
forma apenas demonstra incompetência e inaptidão para o lugar. Trata-se de uma questão de liderança: autoridade pela competência e pelo exemplo; exigência e rigor de procedimentos explicitados, mas tudo isto com benevolência e compreensão humana.
Quando distintos intermediários, oligopolistas ou gente que nunca passou uma hora como gestor numa empresa da economia real vem para a comunicação social perorar sobre as implicações negativas da legislação laboral na produtividade, tal só pode ser classificado como ignorância ou má fé. O Relatório da Associação Industrial Portuguesa (AIP) sobre a Competitividade (de 2010) em dez medidas de Políticas Públicas (pág.8) refere
apenas em 6º lugar “melhorar a flexibilidade laboral”. Por sua vez o Relatório da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) de 2010 sobre a Indústria Portuguesa em 10 recomendações para a competitividade (pág. 92 e 93) não menciona sequer a legislação laboral – e com razão.
Vários gestores estrangeiros com larga experiência profissional têm classificado os operários portugueses como dos melhores que têm conhecido pelo mundo fora: “o vosso problema é a gestão” – é afirmado.
Efectivamente, como já dissemos, a experiência mostra que não mais que 10 a 15%, do tempo improdutivo, como estimativa, podem ser directamente atribuídos a falhas do trabalhador, inevitáveis para qualquer ser humano, em qualquer país.
Os tempos improdutivos podem sempre ser reduzidos por adequadas medidas e acções da gestão.
Nos diversos níveis de gestão, são necessárias pessoas que compreendam todas as dimensões técnicas, económicas, pessoais e sociais da empresa, com formação humanista. A cultura globalmente entendida – como a entendia o grande matemático e democrata progressista Bento Jesus Caraça - é um factor decisivo na capacidade de evoluir e melhorar, necessária para organizar a participação de todos, ouvindo as pessoas, dando oportunidades, aproveitando os conhecimentos do pessoal para criar novas ideias.
A compreensão dos aspectos que influem no comportamento individual é fundamental para poder entender o funcionamento organizativo. A eficácia depende, em grande parte, da convergência que exista entre as necessidades e os objectivos pessoais ie as necessidades e objectivos da orga-nização, para que quanto maior for esta convergência, maior seja a motivação de cada trabalhador.
No nosso país em que os sucessivos governos mostram não ter capacidade de dinamizar a economia e melhorar a produtividade, culpam-se os trabalhadores, há um ambiente de suspeita, insatisfação, recalcamentos e insegurança.
Falámos em planos de melhorias, mas para isto é preciso haver mercado. O abaixamento do preço da força de trabalho, a redução do nível de vida e do PIB não oferece suficiente estímulo para introduzir novos elementos de progresso e inovação na produção. Corresponde a uma das contradições do capitalismo: o aumento da exploração opõe-se ao desenvolvimento económico. A desindustrialização e o desemprego são um exemplo desta situação com o objectivo de manter elevadas taxas de lucro. Na realidade, o capitalista só investe se previamente houver a perspectiva da existência de mercado para a produção resultante.
Há duas formas de aumentar a competitividade: reduzindo os “custos salariais” ou aumentando a produtividade.
A primeira hipótese corresponde á deflação salarial, às medidas de austeridade e flexibilidade laboral. É a via da recessão e do desastre económico. Procura-se a competitividade no abaixamento dos “custos salariais” reduzindo impostos para o capital aumentando impostos para o consumo.
O aumento da produtividade pelo desenvolvimento tecnológico e melhoria dos processos de planeamento e gestão democráticos será a via do progresso e do desenvolvimento económico e social.
Para o reformista social Robert Owen (1771- 1858) a causa da depressão económica residia na desvalorização do trabalho humano. O sistema capitalista não conseguiu ultrapassar esta questão nem tem forma de o fazer - senão na medida em que deixar de o ser.
Nota final: As afirmações produzidas nestes casos são retiradas da experiência pessoal do autor, como gestor.

Daniel Vaz de Carvalho
Engenheiro electrotécnico. Gestor

Lola Danza em "Mountain Rabbit"